sexta-feira, março 15, 2019

#005 - Além da Imaginação: Onde está todo mundo? (1959)


Um homem desperta sozinho em uma pequena cidade. Sem memória, ele não consegue se lembrar do seu nome ou mesmo o que está fazendo ali. O pesadelo aumenta quando ao caminhar pela cidade ele não consegue encontrar ninguém. Onde estaria todo mundo?

Há uma quinta dimensão
além daquelas conhecidas pelo homem.
É uma dimensão tão vasta quanto o espaço
e tão desprovida de tempo quanto o infinito.
É o espaço intermediário
entre a luz e a sombra.
Entre a ciência e a superstição.
E se encontra entre o abismo
dos temores do homem
e o cume dos seus conhecimentos.
É a dimensão da fantasia.
Uma região que pode ser considerada...
Além da Imaginação.

Esta era a introdução que abria os episódios da clássica série de ficção e fantasia The Twilight Zone  - Zona do Crepúsculo, tradução literal; Além da Imaginação no Brasil e A Quinta Dimensão em Portugal. A primeira fase da serie criada pelo roteirista americano Rod Serling trouxe 153 episódios (de aproximadamente 25 minutos) entre 1959 e 1963.

Todos sabem que a série é considerada um marco na televisão quando pensamos em ficção científica, fantasia e horror, mas, não é apenas isso. A jogada mais genial de Serling era discutir dilemas morais e sociais os inserindos em tramas fantásticas que inspirariam outros mestres do gênero no futuro, como Stephen King e Steven Spielberg.
   
No primeiro episódio, Onde Está Todo Mundo?, o incômodo, o estranhamento está na situação surreal de um homem que acorda sozinho no mundo, sem ninguém, sem entender o que ocorre. O clima de pesadelo parece extraído da paranóia americana em relação ao holocausto nuclear. Mas o desfecho é um pouco mais convencional que isso. O episódio trás ainda um easter egg bem interessante: em determinado momento o protagonista se depara com um expositor de livros colocando em destaque o best seller de Richard Matherson, escrito alguns anos antes: The Last Man on The Earth.

E com spoilers, moral da angustiante história, literalmente a dificuldade da tão sonhada "conquista do espaço": A barreira da solidão. O inevitável desespero da necessidade de contato com outro ser humano.
   
Em tempos: a série deve voltar em 2019 nas mãos do Jordan Peele (Corra!). Aguardamos ansiosos.

terça-feira, março 05, 2019

#004 - Tabula Rasa (2017)


Minissérie belga que narra o pesadelo vivido por  Mie, uma mulher que sofre de amnésia retrógrada (perda de memória recente) e que acorda em um manicômio acusada de ser a responsável pelo sumiço do suposto amante. A grande sacada do enredo são as reviravoltas, quem morreu na verdade não morreu mas pode ter morrido, visto que além de falsas memórias parece que todos são suspeitos em manipular a protagonsta. Ou seja, nada é o que realmente parece ser, os vilões podem ser heróis e vice-versa.

Dentre os diferentes plot twists há um abandono no teor sobrenatural dos episódios iniciais e é exatamente depois desta mudança, quando o enfoque fica mais investigativo que a série melhora muito, culminado em dois excelentes episódios finais onde todas as pontas são amarradas com classe.

Enfim, a produção é de primeiríssima em todos os aspectos técnicos, principalmente na fotografia e no elenco muito competente, que conta com a bela protagonista Veerle Baetens (você pode se lembrar dela do excelente filme barra-pesada Alabama Monroe), o esquisitão piromaníaco Stijn Van Opstal e o veterano Gene Bervoets interpretando o investigador policial atormentado pelo desaparecimento do filho. 

Em tempos, tábula rasa é uma expressão em latim cujo significado literal é "tábua raspada" e tem o sentido de "folha de papel em branco" associada no enredo à falta de memória da protagonista, que pode ser preenchida pela verdade, ou não.

sábado, fevereiro 23, 2019

#003 - População 436 (2006)


O texto abaixo (apesar de bem apático) e o filme de qual trata, têm um valor especial pra mim. A crítica foi a minha primeira publicadação em um grande site na internet. Na época (os idos 2006), o pequeno conjunto mal encadeado de palavras abaixo foi enviado para o Boca do Inferno para uma seleção de autores e, sinceramente, fiquei muito feliz quando ele foi aprovado e abriu as portas para uma parceria que duraria alguns anos e mais de uma centena de artigos e reviews publicados. 
Por isso, ele permanece na integra, sem melhorias ou revisões. 

#003 - População 436 (2006)
Pequenas e bucólicas cidades do interior são sempre cenários perfeitos para grandes segredos. Em Rockwell Falls não é diferente. Lá as pessoas são felizes, não há violência ou crimes. Entretanto toda esta aparente tranqüilidade é posto à prova quando o agente do senso Steve Kady (Jeremy Sisto, do seriado "Sete Palmos") chega até o local. A principio todos são amigáveis e hospitaleiros, inclusive o policial Bobby Caine (Fred Durst, o vocalista da banda Limp Bizkitz). Entretanto, ao entrevistar a população, Kady começa a desconfiar que algo esteja fora do lugar. Seu temor toma forma, quando, ao examinar os documentos da cidade, descobre que há 100 anos a população se mantém em 436 habitantes. Esta estranha anormalidade, aliada a superstição local de que todos os que deixam a cidade morrem vão tornar a vida de Kady um pesadelo.
Produção visivelmente de baixo-orçamento, mas que se revela uma boa opção. Não há exageros ou violência, mas o roteiro bem amarrado compensa todas as deficiências, inclusive as do elenco. A atuação do protagonista, interpretado por Jeremy Sisto, parece amadora em determinadas seqüências. Entretanto, uma pequena e inesperada surpresa é a atuação do vocalista Fred Durst, que não compromete e em certos momentos até impressiona.

O roteiro, que incorpora idéias de clássicos como "O Homem de Palha" (recentemente refilmado como "O Sacrifício") e do mais recente "A Vila", de Shyamalan, é assinado pelo estreante Michael Kingston. Aliás, a direção é da também estreante Michelle Maxwell (seus trabalhos anteriores se resumiam a episódios de séries de TV, como "Arquivo X" e "Without a Trace").

A versão em DVD lançada no Brasil traz, além de trailers de outros filmes de terror a serem lançados pela distribuidora, um final alternativo, onde o destino do protagonista é o oposto do escolhido oficialmente.

Na soma final dos pontos e contrapontos, "População 436" acaba se tornando uma boa opção. Principalmente nestes tempos sombrios, em que o mercado cinematográfico é bombardeado por refilmagens e continuações.

A parceria entre os astros do rock and roll e cinema renderam alguns grandes filmes, como o gótico “Fome de Viver”, onde o camaleão David Bowie vive um vampiro que tem que encarar seu trágico destino, quando deixa de ser imortal. Entretanto, o resultado nem sempre é tão empolgante. O vovô Alice Cooper já protagonizou seu verdadeiro trash em “Monster Dog”, do diretor italiano Cláudio Fragasso (parceiro de Lucio Fulcci na empreitada “Zombi 3”). Já Dee Snider, vocalista do Twisted Sisters, contracenou com Robert Englund (o imortal Freddy Krueger) no fraco “Mórbido Silêncio” em 1998. Joey Ramone deu o ar na graça na comédia de humor negro “Final Rinse”, onde um serial-killer escalpelava cabeludos (principalmente os rockeiros). A vocalista do Blondie, Deborah Harry participa do escatológico “Videodrome”, de David Cronemberg. E não podemos esquecer do rock star (?) John Bon Jovi, de “Vampiros: os Mortos”, seqüência do filme de Carpenter. E por aí vai.

sexta-feira, fevereiro 22, 2019

#002 - O Lobisomem de Londres (1935)


O cinema implantou em nossas memórias que o mundo em preto-e-branco tem mais, por falta de uma palavra no momento, glamour. Pra mim a fotografia sem cores está mais ligada a memória, ao saudosismo; mesmo que não tenhamos exatamente vivido aquela época. Fato é que há algo a ser experimentado quando assistimos filmes como “O Lobisomem de Londres”, de 1935. Existe a viagem pela ausência das matizes extravagantes do cinema atual ou o estranhamento pelos cenários pouco realistas ou os diálogos nada convincentes característicos deste filmes do início do século passado. A tudo isso soma-se ainda a ingenuidade dos personagens que, por exemplo, aceitam com facilidade situações nonsenses, como a existência de um lobisomem vagando pelas ruas de Londres. A sensação que temos é que o cinema não tenta ser real, tenta apenas ser cinema.

O longa, dirigido pelo americano Stuart Walker, é considerado um dos primeiros a abordar a temática lobisomens e tem assim, entre outros méritos, ajudar a definir algumas características da mitologia licantrópica (como a tranformação durante a lua cheia ou a cura através de uma flor) – ainda que deixe de lado outras famosas, como a bala de prata. 

Embora seja um primo menos conhecido, “O Lobisomem de Londres” faz parte da prolífica safra dos monstros clássicos da Universal, que nos presenteou com obras como “Drácula” (1931), “Frankenstein” (1931), “O Homem Invisível” (1933) e “A Múmia” (1932), entre outros. Dez anos depois do filme em questão, o estúdio exploraria (com mais êxito) o mesmo personagem, em “O Lobisomem” (1941), agora estrelado por Lon Chaney Jr

Na trama de "O Lobiosomem de Londres", o botânico inglês Wilfred Glendon viaja até o Tibet em busca de uma rara flor, chamada mariphasa lumina lupina, que só floresce durante o luar. Durante a busca acaba mordido por uma estranha criatura, meio-homem, meio-lobo. O botânico retorna à Londres com a planta desejada, mas também com uma perigosa doença. Como alerta o personagem Dr, Yogami: “O Lobisomem instintivamente mata a pessoa que mais ama”.

Fica enfim uma sugestão: o melhor segredo para saborear um filme de mais de 8 décadas é deixar se levar no tempo e aproveitar. De maneira nenhuma caia na armadilha de estabelecer comparações técnicas com o cinema atual. Lembre-se que apesar dos avanços técnológicos, o cinema de hoje continua aprendendo com estes clássicos e de tempos em tempos bebe diretamente na fonte, apostando em remakes, reboots, resets e em reimaginações de tudo quanto é tipo.

quinta-feira, fevereiro 21, 2019

#001 - Juízo Final (2008)

Quando este pequeno texto foi publicado originalmente há uma década atrás, não tínhamos por aqui Netflix nem tão pouco o Facebook, mas já navegavamos pelo lendário Boca do Inferno, site brasileiro especializado no gênero horror (com o qual colaborei com muita alegria por alguns anos quando, digamos assim, o ritmo caótico paulistano de vida me permitiu). A lógica inicial era: eu publicava um texto no Boca e o replicava neste blog pessoal - que, por algum motivo desconhecido, volta a vida depois de uma década de animação suspensa. O blog é na verdade a convergência de duas atividades que me dão muito prazer: escrever e ver filmes.

#001 - Juízo Final (2008)

Uma questão básica e algumas respostas mais que óbvias para os admiradores do gênero: qual seria a receita infalível para um filme certeiro, despretensioso (se é que isso é possível) e extremamente divertido? Bom, vamos lá:

1. Juntamos o maior número de ingredientes, ops, ideias possíveis. De preferência as mais malucas, aquelas extraídas dos filmes que víamos em VHS quando éramos adolescentes ou crianças (tá, entreguei minha idade aqui); misturamos tudo muito bem, sem medo de errar. "Juízo Final", do nosso grande amigo e chief Neil Marshall, combina especiarias como “Fuga de Nova York”, “Mad Max”, “Extermínio” “Rei Arthur”.

2. Adicione então o ingrediente secreto mais desejado do cinema: uma protagonista com uma bela dose de sexy appeal encarnando uma heroína motherfucker invencível.

3. Para o recheio, use doses bondosas de violência e, para apimentar um pouquinho, algumas pitadas de conspiração governamental.

4. Cobrimos tudo com uma trilha sonora rock and roll esquisita (Fine Young Cannibals, Siouxsie and the Banshees, Frank Goes to Hollywood e Kassabian, entre outros).
Mas, porém, apesar de e contudo, não estamos falando exatamente de uma iguaria sofisticada e inesquecível; devemos, para saborear o resultado, acertar as expectativas.
Divertido talvez seja o melhor adjetivo, o mais adequado a "Juízo Final"; o longa é um pseudo-Filme B, com efeitos digitais caprichados pra época, boa maquiagem e cenas de ação bem interessantes.

Em relação ao roteiro, escrito pelo próprio diretor Neil Marshall, segue um resumo que tenta não estragar as surpresas: os primeiros frames já mostram a Escócia sendo assolada por um vírus terrível chamado Reaper. Os infectados sucumbem em enormes feridas e apodrecem em carne viva. Rapidamente o governo britânico isola a colônia escocesa com enormes muros, deixando todos para morrerem por lá, infectados ou não. Passam três décadas e o vírus volta a se manifestar, agora em plena capital inglesa. Os governantes têm então uma ideia genial digna de Donald Trump: inundar Londres, matar todo mundo e conter assim a epidemia. Mas fotos de um satélite que revelam sobreviventes dentro do território escocês, mesmo depois de anos de isolamento da região, trazem uma nova esperança. Teriam eles encontrado a cura para o vírus fatal? É aí que entra a agente Sinclair, uma linda morena “de um olho só” (o outro é uma prótese e ao mesmo tempo uma espécie de micro-câmera espiã!). Só para constar, a personagem é uma clara releitura / homenagem / apropriação do personagem Snake Plissken, criado por John Carpenter em “Fuga de Nova York”. A agente lidera uma equipe militar que deve se infiltrar na antiga Escócia e “fugir” com a cura para a Inglaterra, evitando assim a morte de milhares de pessoas na capital (que morreriam pelo vírus ou afogadas). O problema é que a antiga Escócia é então uma terra sem-lei, povoada não apenas por punks malucos fugidos do filme "Mad Max" (daqueles tatuados, com piercings, roupas rasgadas e descabelados), mas também guerreiros que vivem como se estivessem na idade média! Isso mesmo: cavalos, armaduras, espadas e castelos.

Vale lembrar ainda que “Juízo Final” é o terceiro trabalho do cineasta Neil Marshall (dos ótimos “Cães de Caça” e “Abismo do Medo”). E em tempos, quando o filme foi lançado, o cineasta inglês era uma das grandes promessas do gênero; promessa que acabou não se provando depois. É provável também que "Juízo Final" tenha um papel importante nesta "interrupção" na ascendente carreira do diretor: o aparente descompromisso caótico do filme não foi bem recebido pelos espectadores da tela grande e a produção acabou rendendo menos de US$ 20 milhões em todo mundo. Depois do longa, Marshall lançaria oficialmente apenas mais um filme, "Centurião", em 2010. Em seguida se dedicaria a televisão, dirigindo alguns episódios de séries famosas, como por exemplo "Game of Thrones" (2011) e "Westworld" (2016). Sua volta aos cinemas é prometida para este ano (2019), com uma nova versão para o personagem das HQs criado por Mike Mignola, o demônio "Hellboy".

Enfim, em relação a "Juízo Final" aka "Doomsday", podemos afirmar ainda hoje o que foi dito no passado: acertando as expectativas, a diversão certamente estará garantida.