Não podia entendê-lo. Não mais. Suas armas. Suas guerras. Seu discurso balbuciando alguma salvação. Mas meu entendimento veio em frações homeopáticas. Não me lembro ao certo, mas a primeira vez que fui sequestrado tinha quase oito anos. Desapareci por quatro dias. Apanhei outros três. Fui levado novamente cinco anos depois. Meus pais me encontraram desmaiado no quintal. Nu. Pílulas coloridas prometeram colocar nos eixos o meu estado mental. E acabar com os pesadelos. Em vão, acabei internado num quarto de paredes branquíssimas que queimavam os olhos. Os pesadelos aumentaram. Figuras disformes me rodeavam. Pupílas gigantescas me vigiavam. Sempre. Pequenas feridas se espalhavam por meu corpo. Segundo o médico, feitas por mim. Permaneci intermináveis meses trancafiado até ser outra vez levado. Fui devolvido 48 dias depois 300 quilômetros distantes.
Contos # 3 - Não Identificado
MMs # 03 - "Garotos Perdidos"
MMs # 02 - "Pelo Amor e Pela Morte"
Música # 01 - Nick Cave a as Sementes Más (Parte 1)


rom Her to Eternity, ainda em 1984. A faixa-título é uma das canções que se destacam, além do cover de Elvis Presley, In The Ghetto. O disco é definido pela crítica como opressivo, obsessivo e sufocante. As letras passeiam por ambientes sórdidos e sombrios. O álbum apresenta bons momentos, como a claustrofóbica Cabin Fever, a épica Saint Huck e a inusitada (e bizarra) recriação de Avalanche, de Leonard Cohen. F
rom Her to Eternity seria regravada em 1987 para o filme "Asas do Desejo", de Wim Wenders.
MMs # 01 - "Cova Rosa"

. Destaques para o terror "Extermínio", a ficção científica "Sunshine - Alerta Solar". Resenhas # 19 - "O Juízo Final"
Primeiro pegamos o maior número de idéias de filmes que são cultuados, amados e idolatrados e misturamos tudo, sem medo de ser feliz. No caso, nosso grande amigo cozinheiro Neil Marshall misturou nada menos que “Fuga de Nova York”, “Mad Max”, “Extermínio”, “Rei Arthur” e um pouco de “Resident Evil”. Com a salada já pronta acrescentamos o ingrediente principal da trama: uma protagonista bem apetitosa e invencível. Recheamos tudo com doses de violência e pitadas de conspiração governamental. Cobrimos com uma trilha sonora rock and roll e fechamos o filme com uma fuga alucinante naquele carrão que todo marmanjo sonha, mas nunca vai dirigir.
Obviamente não estamos falando da maior obra-prima do cinema inglês, mas sim de uma produção descompromissada, com bons efeitos digitais, ótima maquiagem e ainda grandes cenas de ação. “O Juízo Final” é o terceiro trabalho do cineasta Neil Marshall (“Cães de Caça” e “Abismo do Medo”) e comprova seu talento na direção. O roteiro, escrito pelo diretor, começa mostrando a Escócia sendo assolada por um vírus chamado Reaper. Os infectados sucumbem em enormes feridas e apodrecem em carne viva. Rapidamente o governo britânico isola a colônia escocesa com enormes muros, deixando todos morrer por lá, infectados ou não. Passam-se três décadas e o vírus Reaper volta a se manifestar, agora em plena capital inglesa. Os governantes então planejam inundar Londres, contendo assim a infecção. Entretanto fotos de um satélite mostram sobreviventes dentro do território escocês, mesmo depois de anos de isolamento. Teriam eles encontrado a cura para o vírus fatal? É aí que entra a agente Sinclair, uma bela morena “de um olho só”. O outro é uma prótese e ao mesmo tempo uma espécie de micro-câmera espiã. O olho-que-tudo-vê transmite imagens para um monitor-de-pulso usado pela garota. Uma evolução do personagem Snake Plissken, criado por John Carpenter em “Fuga de Nova York”, a grande inspiração de Marshall na concepção do roteiro. A agente Sinclair lidera uma equipe militar que deve se infiltrar na antiga Escócia e “fugir” com a cura para a Inglaterra, evitando assim a morte de milhares de pessoas na capital (que morreriam pelo vírus ou afogadas). Bom, o maior problema para a bela caolha não são exatamente os escoceses infectados, mas sim os sobreviventes. A antiga escócia acaba virando uma terra sem-lei, povoada por punks malucos fugidos do filme Mad Max (daqueles tatuados, com piercings, roupas rasgadas e descabelados). Mas existem outros sobreviventes dentro do território. Não menos violentos, eles vivem como se estivessem na idade média. Isso mesmo: cavalos, armaduras, espadas e castelos. Bom, parece uma bagunça e realmente é. Mas uma bagunça extremamente divertida, “organizada” por um dos grandes nomes do cinema de horror atual, o inglês Neil Marshall. A Europa filmes promete a exibição de “O Juízo Final” nas telas grandes ainda este ano. Se isto realmente acontecer, sirvam-se à vontade.
Conto # 2: Torpe
Torpe
“O anonimato é a manifestação do ódio vilão.”
(Victor Hugo)
Um disparo rompeu o silêncio. O ar carregou-se de pólvora dificultando a respiração, impedindo-nos de sentir o cheiro adocicado de sangue. Ainda que efêmero, um prazer quase complacente açoitava-nos. Sem culpa. Sem remorsos. Um corpo desabou. Seu casaco verde gradualmente tornou-se rubro. Estatística para o governo. Manchete para os jornais.
Há alguns meses era apenas uma dúvida. Pequena. Talvez ele tivesse alguma razão. Sua luta poderia ser a minha. A nossa. Aos poucos essa dúvida cristalizou-se numa idéia. Não era justo. “Este é o nosso país”. Esta idéia começou a me torturar. Não me deixava dormir. Sorrateiramente transformou-se num ideal. Um ideal que foi convertido no sentimento que nos trouxe até aqui.
Gotas de chuva caíram formando pequenas poças. A água misturou-se ao sangue. Guardava a arma ainda quente quando ouvi alguns gemidos. Sussurros que imploravam. Com as mãos sufoquei suas últimas palavras.
Alguns estranharam quando raspei a cabeça. O visual era mais agressivo e demonstrava certa insatisfação com o rumo que as coisas tomavam. Na verdade todos estavam insatisfeitos. Mas poucos realmente ligavam. Terminara de ler um livro comprado no centro de São Paulo. Era um livro odiado, mais pelo seu autor do que pelo seu conteúdo. Este, poucos realmente conheciam. Era fascinante. Palavras escritas numa prisão há quase cem anos, mas que podiam nos guiar agora.
Não me incomodava o corpo daquele jovem ali no chão. Não me importava ter tirado a sua vida. Sentia-me mais forte agora. Um a menos. Uma cidade mais limpa. Se eu o conhecia? Não.
Tatuar uma cruz em meu braço não fora uma tarefa tão simples. E depois de feita, raramente podia exibi-la. Não que eu tivesse medo, pois nesta época já não andava mais sozinho.
Com tinta spray vermelha desenhamos uma cruz ao lado do corpo. A chuva cessara. Passageira. Provamos nossa superioridade com violência. Sabíamos que a violência era tão vulgar quanto essencial ao desenvolvimento do ser humano.
Olhei pela última vez o jovem morto com um tiro na nuca. Buscava em algum lugar um sentimento de arrependimento. Nada. Uma voz sussurrava em meus ouvidos: “é a seleção natural, é a evolução. O seu destino é selado por suas escolhas, ou pela cor de sua pele. Assim separamos os fortes dos fracos. Os que vivem dos que morrem”. Respirei fundo. Você sorria ali do meu lado. Um sorriso branco e satisfeito que aprovava nossa ação.
Resenha # 18: Floresta do Mal

“Fazendo o Esquartejamento Ter Uma Boa Aparência”.
“Floresta do Mal”, na melhor das hipóteses, pode ser considerado uma boa homenagem aos primeiros trabalhos dos cineastas Wes Craven e Tobe Hooper. Esta homenagem (reciclagem ou plágio, como preferirem) fica evidente na seqüência do jantar, quando a “visita” se vê obrigada a provar o prato principal a base de carne humana (a ironia: ela é vegetariana). Algo muito próximo ao que foi visto em “O Massacre da Serra Elétrica”, de Hooper. Uma outra citação é a camiseta preta usada por M, com o logotipo “BR” (de “Battle Royalle”, produção japonesa que é indiscutivelmente o melhor filme focando reality shows já realizado).
Enfim, um terror mediano, indicado aos fãs de “gore” explícito e que não sejam muito exigentes quanto ao conteúdo. Estes são brindados com milhares de litros de sangue e toneladas de tripas.
Floresta do Mal (Wrong Turn 2: Dead End, EUA/Canadá, 2007).
Direção: Joe Lynch.
Roteiro: Turi Meyer e Al Septien.
Produção: Jeff Freilich.
Produção Executiva: Erik Feig.
Edição: Ed Marx.
Desenho de Produção: Brentan Harron.
Direção de Arte: Kirsten Franson.
Maquiagem: Angelina P. Cameron, Stan Edmonds, Vanessa Giles, Keith Lau e Shauna Magrath.
Figurino: Hisami Yamamoto.
Fotografia: Robin Loewen.
Música: Bear McCreary.
Elenco: Erica Leerhsen (Nina Papas), Henry Rollins (Dale Murphy), Texas Battle (Jake Washington), Daniella Alonso (Amber), Steve Braun (Jonesy), Aleksa Palladino (Mara), Crystal Lowe (Elena), Matthew Currie Holmes (M), Kimberly Caldwell (Kimberly), Ken Kirzinger (Pa), Wayne Robson (homem velho), Jeff Scrutton (Three-Finger), Clint Carleton (irmão), Rorelee Tio (irmã), Ashlea Earl (Ma), Cedric De Souza (Neil), John Stewart (Wojo) e Bro Gilbert (Chris).
Conto # 01: Afogadouro
Afogadouro
"O ódio é o produto tanto das boas obras como das infames."
(Maquiavel)
Demorei um tempo para entender o que estava acontecendo. Não sentir as pernas era um mau sinal. Com muito esforço e uma dor quase insuportável, consegui mover os braços e limpar o sangue que cobria o meu rosto. Mesmo podendo enxergar, ainda não via a extensão dos meus problemas. Minha cabeça doía muito e pensar não era uma tarefa, digamos, muito fácil. Um gosto amargo de ferrugem me embrulhava o estômago. Bom sinal: ainda tinha estômago. E um pouco de humor. Estava no meu carro. E o meu mundo estava de pernas o para ar, literalmente.
Havia sofrido um acidente. E estava preso nas ferragens. E pelo pouco que podia ver, meu Golzinho velho estava tombado. Tentava buscar algum flashback que me explicasse o que realmente tinha acontecido. Tipo aqueles de Hollywood, em preto-e-branco. Mas nada passava nesta minha cabeça atordoada. Do lado de fora tudo o que eu via era mato e, bem ao longe, uma estrada. Meu coração começou então a bater mais forte. Tentei manter a calma. Pois acho que antes de morrer, o coração bate mais forte e depois pára. E eu não queria morrer. Tinha um bom motivo para isso, embora não lembrasse qual. A rodovia ao longe. Mato. Foi fácil deduzir: por algum motivo havia saído da estrada e capotado. E o carro caíra numa vala. Destas malditas que existem ao redor das estradas. Meu coração batia um pouco mais devagar, mas estável.
Estava com sede. Sinal de morte iminente? Não sei. Mas acho que a morte se torna uma obsessão quando se está todo arrebentado e preso nas ferragens de seu carro no meio do nada. Tentei mover as pernas (aquelas que eu não sentia), mas foi
Passaram-se alguns minutos. Algumas horas. Cheguei à conclusão de que o resgate não iria me encontrar tão facilmente. Eu estava longe da estrada. Era noite. E principalmente porque não passava um filha-da-puta sequer naquele fim de mundo. Bom, neste momento, o medo de morrer pelos ferimentos passou. O medo agora era morrer de fome, de sede ou de vontade de ir ao banheiro. Ou talvez de enlouquecer.
Foi aí que resolvi buscar outro flashback daqueles. Lembrar algo de bom que havia acontecido antes. Puta-que-o-pariu! Estiquei o braço, abri o porta-luvas e lá estava o bilhete premiado da loteria. Vários milhões. Carro novo (importado, lógico). Mulheres. Uma lancha. Mulheres. Viagens. Mulheres. Uma guitarra igual a que Hendrix tacou fogo em Woodstock! 4, 8, 15, 16, 23 e 42! Bom, agora eu tinha certeza. Eu não poderia morrer mesmo.
O tempo passava e nada. Minha boca estava totalmente seca. Comecei a ficar com muita sede. Foi aí que tive a idéia mais estúpida de minha vida: rezar. Sei que nunca acreditei muito nestas coisas, mas nesta situação, valia tudo. Pedi para Deus um copo de água. Sempre ouvi que um copo d’água não se nega a ninguém. Deus me respondeu rapidinho. Começou a chover. Algumas gotinhas. Algumas gotonas. Um puta temporal. Daí eu vi que a bosta tava feita. A vala começou a encher de água. E meu Golzinho também. Minha sede ia passar e eu ia morrer afogado!
Merda! Merda! Merda! Eu tinha que pensar rápido. Deus não era tão ruim assim e tinha me dado um pouco de inteligência. Foi dolorido, mas consegui fechar o vidro da janela. Reparei que faltava uma unha em um dos dedos. Rapidamente contei. Bom, pelo menos, os dez dedos estavam ali. Os da mão. Os do pé, infelizmente não podia ver. Sei que foi uma cagada capotar o carro e os vidros ainda estarem inteiros. Mas não era hora de questionar o meu destino. Ali estava eu: com sede, arrebentado, preso nas ferragens e com o carro sendo submerso pela água.
Tentei evitar pensamentos do tipo: o vidro pode estourar, a água invadir o interior do carro e eu morrer afogado e de ponta cabeça. Mas eu tinha um trunfo: eu era rico agora. E até onde eu sei os ricos sempre se dão bem. Podia então estar sonhando. Não haveria acidente nenhum. Não haveria dor, nem unha faltando, nem morte iminente. Seria um pesadelo e eu só precisava acordar. Mas merda! Se fosse um sonho eu também não teria ganhado na loteria. Estaria vivo, pobre e fodido.
Ainda chovia, mas o temporal tinha virado uma pequena garoa. Estava perdendo as esperanças quando vi uns faróis na estrada. Como não tinha aprendido a lição, resolvi rezar novamente. Deus mostrou sua eficiência e o carro, que já havia passado do ponto mais próximo ao meu acidente, deu meia-volta e encostou. Estava salvo. E rico. Daria um presente para meu salvador. Pelo menos 100 reais. A sede passou e tive a impressão do meu dedão do pé se mexer. Estava salvo, rico e com o dedão do pé!
Achei estranho quando o motorista saiu do carro carregando uma marreta. Foi neste instante que um flashback forçado sacudiu minha cabeça. Destes irritantes que num filme explicam o final surpresa para os espectadores mais burros. Eu não havia ganhado na loteria. Eu havia roubado o bilhete. Roubei de um nerd maldito do meu serviço. O cara nem gostava de mulher. Pra que iria querer tanta grana? Quando meus pensamentos ficaram coloridos de novo, ele já estava dentro da vala, com a água até o joelho, a boca espumando e uma marreta gigante nas mãos. Não sei por que entendi que ele não estava ali para me salvar. Foi só o tempo de ouvir o estouro na janela do meu lado. Em segundos a água invadiu o interior do carro. E lá estava eu: pobre e afogado.
Resenha # 13: Epidemia de Zumbis
Sir James Forbes, médico e professor da Faculdade de Londres recebe uma carta desesperada de um ex-aluno, o Dr. Peter Tompson, pedindo ajuda para identificar e controlar uma extranha doença que matou várias pessoas em seu vilarejo. Sir James e Sylvia, sua filha, partem para Cornualha e acabam encontrado um terrível mistério: o corpo dos mortos pela extranha doença desapareceram. Magia negra, mortos-vivos e muito suspense ambientado na Europa do século XVIII.
Epídemia de Zumbis (The Plague of the Zombies, 1966, Inglaterra)
Roteiro: Peter Bryan.
Produção: Anthony Nelson-Keys.
Música: James Bernard.
Figurino: Melissa Toth.
Direção de Arte: Don Mingaye.
Edição: Chris Barnes.
Duração: 90 min.
Distribuíção: Em pela Works Editora.



