Contos # 3 - Não Identificado

Não podia entendê-lo. Não mais. Suas armas. Suas guerras. Seu discurso balbuciando alguma salvação. Mas meu entendimento veio em frações homeopáticas. Não me lembro ao certo, mas a primeira vez que fui sequestrado tinha quase oito anos. Desapareci por quatro dias. Apanhei outros três. Fui levado novamente cinco anos depois. Meus pais me encontraram desmaiado no quintal. Nu. Pílulas coloridas prometeram colocar nos eixos o meu estado mental. E acabar com os pesadelos. Em vão, acabei internado num quarto de paredes branquíssimas que queimavam os olhos. Os pesadelos aumentaram. Figuras disformes me rodeavam. Pupílas gigantescas me vigiavam. Sempre. Pequenas feridas se espalhavam por meu corpo. Segundo o médico, feitas por mim. Permaneci intermináveis meses trancafiado até ser outra vez levado. Fui devolvido 48 dias depois 300 quilômetros distantes.

Voltei diferente. Parecia curado, ainda que me sentisse estranho entre meus semelhantes. Não havia mais pesadelos. Nem feridas. Nem dor. Nem medo. Um emprego respeitável. Uma casa para o cachorro. Um diploma em biologia. E uma inexplicável atração pelas estrelas.

A calmaria foi substituída pela inquietação. Sabia que seria sequestrado de novo. Sabia também que seria diferente desta vez. Às noites aguardava olhando para o céu. Imponente. Infininito em sua negritude. Esperava ser levado pela última vez.

Consciência. Descobri num quarto frio e metálico que não seria meu último encontro. Meu sangue era drenado. Minha saliva sugada. Meu cérebro violado. Difícil crer que não havia dor. Ainda que cada centímetro do meu corpo estivesse perfurado por minúsculas agulhas, que coloridas brilhavam e iluminavam uma escuridão opaca.

Eles falavam sem mover os lábios palavras que não eram palavras. “Você está pronto para compreender o destino que lhe será revelado.” Tentei falar, mas minha boca estava paralisada. Assim como o resto do meu corpo, que flutuava imóvel entre aparelhos que me eram familiares sem nunca tê-los vistos.

“Não nos tema, pois estará temoroso de si mesmo. Estamos aqui para evitar o que parece inevitável: a falência e a degradação de um paraíso que aos humanos foi cedido há milhões de anos. São muitos iguais a nós, espalhados pelo terceiro corpo, se multiplicando, em idéias e em esperança”.

Aceitei quem era então. Diferente de ti embora semelhante. Compreendi então por que não podia entendê-lo. Suas armas. Suas guerras. Sua dor auto-inflingida. A destruição do seu lar. Entendi meu destino: mudá-lo.

MMs # 03 - "Garotos Perdidos"

O que vampiros, praia, sol, punks, góticos, hippies e jovens desaparecidas têm em comum?? "Garotos Perdidos", que junta tudo isso num mesmo caldeirão, representa um dos Melhores Momentos da divertida década de 80...



MMs # 02 - "Pelo Amor e Pela Morte"

Um clássico italiano, muito comentado, mas pouco assistido (talvez por ainda ser inédito em DVD por aqui). Um dos grandes méritos de "Pelo Amor e Pela Morte" é a atmosfera onírica, beirando a poesia (destoando em muito da grande maioria dos filmes do subgênero zumbis) e a participação do ótimo Rupert Everett. Dirigido por Micheli Soavi, inspirado numa obra do criador de Dylan Dog, Tiziano Sclavi.

A sequência abaixo é o final do filme (por isso quem ainda não viu, se contenha):

Música # 01 - Nick Cave a as Sementes Más (Parte 1)


 (Este post foi publicado inicialmente no blog Gramofone Virtual)

Nick Cave nasceu Nicholas Edward Cave numa pequena cidade da Austrália em 22 de Setembro de 1957. What? Você não sabe quem é Nick Cave? A voz mais gutural do rock mundial?

Então vamos a uma rápida apresentação e de imediato uma correção: Cave e sua banda, The Bad Seeds, tiveram a carreira vulgarmente (e equivocadamente) associada pelos críticos de plantão ao rock'n roll gótico dos idos anos 80. No entanto, apesar das canções que falam de amor, morte, crimes e melancolia, a faceta lúgubre do compositor australiano esconde um verdadeiro gênio musical, muito comentado, mas pouco ouvido e entendido em terras tupiniquins.

No cinema, além de compor trilhas sonoras, Cave atuou no faroeste “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford” (2007) e escreveu o roteiro original do imperdível “A Proposta” (2005).

Com mais de quinze discos lançados, uma dica para os novos adeptos ao som de Nick Cave é a coletânea The Best of Nick Cave & The Bad Seeds, lançada em 1999. Quem garimpar em lojas especializadas e estiver com um pouco de sorte pode conseguir a primeira edição, um álbum duplo que traz como bônus uma apresentação ao vivo chamada Live At The Royal Albert Hall, gravada em 1997. Vale ressaltar ainda que a distribuidora nacional Paradoxx Music lançou toda a discografia de Nick e The Bad Seeds no Brasil.

Voltemos à biografia. Nick Cave nasceu Nicholas Edward Cave numa pequena cidadade da Austrália em 22 de Setembro de 1957. Cave conheceu, ainda na adolescência, o multinstrumentista Mick Harvey. Amigos de escola, rapidamente formaram uma banda, o The Boys Next Door (cujo som foi influenciado por uma banda australiana chamada The Saints). Em 1978, o baixista Tracy Pew e o baterista Philip Cavert juntam-se ao grupo, que lança o single These Boots Are Made For Walking, inspirados pela canção de mesmo nome interpretada por Nancy Sinatra (essa mesmo, filha do Frank Sinatra. O quê?? Não sabia que a filha do ator/cantor americano seguiu os passos do pai?? Talvez você se lembre da balada-western Bang Bang, parte da trilha do filme “Kill Bill”, do Tarantino). A rotina de Nick em início de carreira era semelhante aos primeiros anos de qualquer banda de rock, pequenos shows em bares e casas noturnas, pouca grana e muita dificuldade. Mas os rapazes insistiram e lançaram ainda em solo australiano um álbum chamado Door Door e um EP, o He-Haw. No entanto, apesar de todo o esforço, o cenário musical local oferecia poucas oportunidades. Nesse momento (meados de 1980), Nick chamou os amigos, pegou um avião e fugiu para Londres. The Boys Next Door virou The Birthday Party e imediatamente lançaram um álbum cujo título era o novo nome da banda. Nem preciso falar que hoje em dia este disco é uma raridade e objeto de colecionador estimado em alguns milhares de dólares.

Mas as dificuldades ainda persistiam e as primeiras apresentações do The Birthday Party na Terra da Rainha causavam certo estranhamento no público local. O cenário, dominado pelo pós-punk, parecia não estar preparado para a ruptura proposta por Cave, que já apresentava os traços característicos que marcariam o Bad Seeds, como o instrumental cru, as apresentações caóticas e o vocal imponente e inigualável. Em 81, a banda assina com o então desconhecido selo 4AD (que futuramente revelaria bandas do naipe do The Pixies). O The Birthday Party lançaria dois discos pela gravadora: Prayers on Fire (1981) e Junkyard (1982). Ainda neste ano, eles saem em turnê pela Alemanha com a banda industrial Einstüzende Neubauten, do guitarrista Blixa Bargeld. Este é um momento de grande importância para o que viria a ser o Bad Seeds, já que Cave acaba grande amigo de Blixa, futuro guitarrista das Sementes Más. Mais uma mudança. Ainda em 82, Nick e sua banda se transferem para Berlim, motivado pela boa recepção da turnê e aproveitando para fugir da polícia londrina que estava de olho nos deslizes da banda envolvendo alguns excessos com o álcool e as drogas. Gravam em solo alemão os EPs The Bad Seed e Munity!, mas no final de 1983 acabam se separando.

Cave volta para a Austrália, onde desaparece e desiste da carreira musical por uns tempos. Mas em 1984, Harvey convence o amigo a formar uma nova banda, chamada de The Bad Seeds (o nome foi tirado de um filme homônimo de 1956). O The Bad Seeds é formado, por Blixa Bargeld na guitarra, Barry Adamson (multinstrumentista), Anita Lane (uma poetisa!), Hugo Pace (guitarrista) e Nick Cave no vocal.

Cave ainda escreve, neste mesmo ano de 1984, o roteiro e a trilha para o filme “Ghosts... Of The Civil Dead”, dirigido por Evan English e John Hillcoat, lançado apenas em 1988. As Sementes Más lançam o seu primeiro disco, FItálicorom Her to Eternity, ainda em 1984. A faixa-título é uma das canções que se destacam, além do cover de Elvis Presley, In The Ghetto. O disco é definido pela crítica como opressivo, obsessivo e sufocante. As letras passeiam por ambientes sórdidos e sombrios. O álbum apresenta bons momentos, como a claustrofóbica Cabin Fever, a épica Saint Huck e a inusitada (e bizarra) recriação de Avalanche, de Leonard Cohen. FItálicorom Her to Eternity seria regravada em 1987 para o filme "Asas do Desejo", de Wim Wenders.

Ok. Muitas palavras e pouca música. Escutem abaixo duas interpretações de Nick Cave. Primeiro uma performance rara da banda The Boys Next Door, com Shivers e em seguida o clipe do maior hit do compositor: Do You Love me? (prestem atenção no início do clipe)

MMs # 01 - "Cova Rosa"

Este primeiro post desta nova seção (Melhores Momentos) é uma homenagem ao inglês Danny Boyle pelo conjunto da obra. Tudo bem que o cineasta já ganhou uma "sacola" de estatuetas em 2009 pelo drama "Quem Quer Ser um Milionário?", mas um prêmio inédito para o rapaz era uma homenagem do Nocturnia-z. Brincadeiras a parte, Danny construiu uma filmografia respeitável ao longo de uma carreira razoavelmente curtaNegrito. Destaques para o terror "Extermínio", a ficção científica "Sunshine - Alerta Solar"

O vídeo abaixo é a sequência final de "Cova Rasa", a estréia de Boyle nos cinemas (filme que tive o prazer de ver na tela grande em 1994, o ano que vim morar aqui em São Paulo). Boyle estreou em grande estilo, com um suspense tarantinesco cheio de reviravoltas. Seu primeiro longa já trazia uma de suas marcas registradas: a trilha sonara caprichada e a edição moderna com cortes e planos ousados. Pra quem não assistiu o filme, não preciso avisar que "a sequência final" contém SPOILERS, ok?


Resenhas # 19 - "O Juízo Final"


Aqui, na cozinha do Nocturnia-Z, já lhes demos a receita de como fazer um filme ruim, muito ruim (leiam “O Portão do Cemitério”). Hoje vamos trabalhar numa receita diferente e bem mais interessante: como fazer um filme divertido.

Primeiro pegamos o maior número de idéias de filmes que são cultuados, amados e idolatrados e misturamos tudo, sem medo de ser feliz. No caso, nosso grande amigo cozinheiro Neil Marshall misturou nada menos que “Fuga de Nova York”, “Mad Max”, “Extermínio”, “Rei Arthur” e um pouco de “Resident Evil”. Com a salada já pronta acrescentamos o ingrediente principal da trama: uma protagonista bem apetitosa e invencível. Recheamos tudo com doses de violência e pitadas de conspiração governamental. Cobrimos com uma trilha sonora rock and roll e fechamos o filme com uma fuga alucinante naquele carrão que todo marmanjo sonha, mas nunca vai dirigir.

Obviamente não estamos falando da maior obra-prima do cinema inglês, mas sim de uma produção descompromissada, com bons efeitos digitais, ótima maquiagem e ainda grandes cenas de ação. “O Juízo Final” é o terceiro trabalho do cineasta Neil Marshall (“Cães de Caça” e “Abismo do Medo”) e comprova seu talento na direção. O roteiro, escrito pelo diretor, começa mostrando a Escócia sendo assolada por um vírus chamado Reaper. Os infectados sucumbem em enormes feridas e apodrecem em carne viva. Rapidamente o governo britânico isola a colônia escocesa com enormes muros, deixando todos morrer por lá, infectados ou não. Passam-se três décadas e o vírus Reaper volta a se manifestar, agora em plena capital inglesa. Os governantes então planejam inundar Londres, contendo assim a infecção. Entretanto fotos de um satélite mostram sobreviventes dentro do território escocês, mesmo depois de anos de isolamento. Teriam eles encontrado a cura para o vírus fatal? É aí que entra a agente Sinclair, uma bela morena “de um olho só”. O outro é uma prótese e ao mesmo tempo uma espécie de micro-câmera espiã. O olho-que-tudo-vê transmite imagens para um monitor-de-pulso usado pela garota. Uma evolução do personagem Snake Plissken, criado por John Carpenter em “Fuga de Nova York”, a grande inspiração de Marshall na concepção do roteiro. A agente Sinclair lidera uma equipe militar que deve se infiltrar na antiga Escócia e “fugir” com a cura para a Inglaterra, evitando assim a morte de milhares de pessoas na capital (que morreriam pelo vírus ou afogadas). Bom, o maior problema para a bela caolha não são exatamente os escoceses infectados, mas sim os sobreviventes. A antiga escócia acaba virando uma terra sem-lei, povoada por punks malucos fugidos do filme Mad Max (daqueles tatuados, com piercings, roupas rasgadas e descabelados). Mas existem outros sobreviventes dentro do território. Não menos violentos, eles vivem como se estivessem na idade média. Isso mesmo: cavalos, armaduras, espadas e castelos. Bom, parece uma bagunça e realmente é. Mas uma bagunça extremamente divertida, “organizada” por um dos grandes nomes do cinema de horror atual, o inglês Neil Marshall. A Europa filmes promete a exibição de “O Juízo Final” nas telas grandes ainda este ano. Se isto realmente acontecer, sirvam-se à vontade.

Conto # 2: Torpe

Torpe

“O anonimato é a manifestação do ódio vilão.”
(Victor Hugo)


Um disparo rompeu o silêncio. O ar carregou-se de pólvora dificultando a respiração, impedindo-nos de sentir o cheiro adocicado de sangue. Ainda que efêmero, um prazer quase complacente açoitava-nos. Sem culpa. Sem remorsos. Um corpo desabou. Seu casaco verde gradualmente tornou-se rubro. Estatística para o governo. Manchete para os jornais.

Há alguns meses era apenas uma dúvida. Pequena. Talvez ele tivesse alguma razão. Sua luta poderia ser a minha. A nossa. Aos poucos essa dúvida cristalizou-se numa idéia. Não era justo. “Este é o nosso país”. Esta idéia começou a me torturar. Não me deixava dormir. Sorrateiramente transformou-se num ideal. Um ideal que foi convertido no sentimento que nos trouxe até aqui.

Gotas de chuva caíram formando pequenas poças. A água misturou-se ao sangue. Guardava a arma ainda quente quando ouvi alguns gemidos. Sussurros que imploravam. Com as mãos sufoquei suas últimas palavras.

Alguns estranharam quando raspei a cabeça. O visual era mais agressivo e demonstrava certa insatisfação com o rumo que as coisas tomavam. Na verdade todos estavam insatisfeitos. Mas poucos realmente ligavam. Terminara de ler um livro comprado no centro de São Paulo. Era um livro odiado, mais pelo seu autor do que pelo seu conteúdo. Este, poucos realmente conheciam. Era fascinante. Palavras escritas numa prisão há quase cem anos, mas que podiam nos guiar agora.

Não me incomodava o corpo daquele jovem ali no chão. Não me importava ter tirado a sua vida. Sentia-me mais forte agora. Um a menos. Uma cidade mais limpa. Se eu o conhecia? Não.

Tatuar uma cruz em meu braço não fora uma tarefa tão simples. E depois de feita, raramente podia exibi-la. Não que eu tivesse medo, pois nesta época já não andava mais sozinho.

Com tinta spray vermelha desenhamos uma cruz ao lado do corpo. A chuva cessara. Passageira. Provamos nossa superioridade com violência. Sabíamos que a violência era tão vulgar quanto essencial ao desenvolvimento do ser humano.

Olhei pela última vez o jovem morto com um tiro na nuca. Buscava em algum lugar um sentimento de arrependimento. Nada. Uma voz sussurrava em meus ouvidos: “é a seleção natural, é a evolução. O seu destino é selado por suas escolhas, ou pela cor de sua pele. Assim separamos os fortes dos fracos. Os que vivem dos que morrem”. Respirei fundo. Você sorria ali do meu lado. Um sorriso branco e satisfeito que aprovava nossa ação.

Resenha # 18: Floresta do Mal


“U.S. – The Ultimate Survival”. Seis competidores. Seis dias. Apenas um sobrevivente. Numa floresta remota, um grupo de jovens disputa um prêmio em dinheiro num reality show que simula um mundo pós-apocalíptico. O terror torna-se real quando os participantes descobrem uma estranha família com hábitos alimentares um tanto quanto exóticos.

Em 2003, a PlayArte teve a idéia genial de distribuir “Wrong Turn” em terras tupiniquins com título de “Pânico na Floresta”. Pra que respeitar a idéia do título original, se podemos lançar o filme com um nome muito mais criativo? Quatro anos se passaram, uma continuação foi produzida e eis que a Fox (e não a PlayArte) adquire os direitos de distribuição de “Wrong Turn 2: Dead End”, no Brasil. Neste mesmo tempo, num golpe baixo e vingativo, a PlayArte lança a bomba “Timber Falls” como “Pânico na Floresta 2”, mesmo o filme não tendo nada haver com “Wrong Turn”. Numa picaretice à altura da concorrente, os responsáveis pelo setor “nome de filmes quando lançados por aqui” da Warner, batizaram “Wrong Turn 2” com o patético e originalíssimo título “Floresta do Mal”. Tomaremos a liberdade (mesmo que por um único parágrafo), de chamar Wrong Turn de “Caminho Errado” (não soa muito bem, mas se aproxima de sua tradução literal) e a sua continuação pelo subtítulo “Sem Saída” (Dead End).

Superando a falta de originalidade na escolha dos títulos em português pelas distribuidoras, vamos ao filme em si. “Floresta do Mal” (respeitando a escolha oficial), assim como seu antecessor “Pânico na Floresta”, não apresenta muita coisa de inovador. Apesar de não ser exatamente um filme ruim, temos a sensação de estarmos assistindo a uma versão genérica dos clássicos “Massacre da Serra Elétrica” e “Quadrilha de Sádicos”. Todas as peças estão lá: jovens desavisados e sem conteúdo caçados por canibais deformados num ambiente inóspito e isolado.

Entretanto “Floresta do Mal” começa muito bem, com uma seqüência um tanto promissora e violenta. Neste prólogo, a cantora, atriz e “American Idol”, Kimberly Caldwell dirige um belo Mustang conversível por uma estrada quase deserta. Pelo celular, ela discute distraidamente com seu empresário uma participação num reality show, quando, comprovando que não se deve jamais usar o telefone enquanto se está ao volante, atropela um desconhecido. Desesperada, a loira desce do carro e tenta prestar socorro à vítima (um rapaz cujo rosto parece deformado). Ao se aproximar do atropelado, Kimberly nota que ele parece engasgado e então tenta puxar sua língua. O rapaz acorda e num gesto furioso, arranca-lhe o lábio inferior com uma mordida. Ensangüentada e em pânico, Kimberly tenta fugir, mas acaba cara a cara com outro homem, que com uma única machadada a corta ao meio.

Esta seqüência é apenas uma pequena amostra do que nos reserva os 90 minutos seguintes. Muita violência explícita, machadadas, flechadas, tiros, facadas, membros decepados e pescoços degolados, entre outras inúmeras crueldades habituais nas produções do gênero. Os ótimos efeitos de maquiagem não deixam a desejar nos “deliciosos” excessos: são tripas, intestinos, dedos, e pedaços de gente suficientes para alimentar a família canibal por muito tempo.

Mas mesmo com estes bons efeitos e o “gore” exagerado, “Floresta do Mal” não chega a impressionar. Falta a produção aquele clima incômodo e indigesto característico as produções setentistas que lhe serviram de inspiração. Esta ausência de suspense deve-se em parte ao fraco desempenho dos atores.

O “dispensável” elenco, destinado a virar o jantar de uma família de malucos deformados canibais, é composto por Aleksa Palladino (que fez uma pequena participação em “O Chamado 2”), interpretando Mara, a namorada do idealizador do reality show (Matthew Currie Holmes, de “A Névoa”). Somam-se aos participantes do programa a linda vegetariana Nina (Erica Leerhsen, de “O Massacre da Serra Elétrica” refilmagem), a também linda Amber (Daniella Alonso, de “O Retorno dos Malditos”) e a safada Elena (Crystal Lowe, de “Premonição 3”). A trupe masculina é liderada pelo vocalista da Rollins Band, Henry Rollins (de “Banquete no Inferno”). Henry encarna o ex-combatente de guerra e mediador do programa. Completando o elenco estão os inexpressivos Texas Battle (“Premonição 3”) e Steve Braun (“Sociedade Secreta 3”), interpretando Jake Washington e o engraçadinho Jonesy.

O roteiro, que foi escrito pela dupla Turi Meyer e Al Septien, responsáveis por diversos episódios de “Smallville” e pelo fraco “Candyman 3: Dia dos Mortos”, se resume a simples tagline do filme: jovens sendo mortos um a um por uma família de canibais deformados. Uma variação da trama do primeiro longa (e de centena de outros), que apresenta ainda diversas situações idênticas as apresentadas no filme anterior, como a visita das heroínas a cabana dos canibais e o cemitério de automóveis. A própria idéia do reality show não é nova, pois já havia sido explorada por produções semelhantes como “O Olho Que Tudo Vê” e “Halloween: Ressurreição”. Uma única sacada divertida é a caracterização do personagem vivido por Henry Rollins, que em determinado momento se transforma numa espécie de Rambo, com direito a cara pintada e arco e flecha.

A direção ficou a cargo do estreante Joe Linch (grande promessa segundo o site americano “Gorezone”). Apesar de algumas tomadas de ângulos extravagantes, o resultado final é um tanto convencional.

Assim como o prólogo, algumas outras seqüências salvam o filme do fiasco, como o nauseante nascimento de um bebê deformado, e uma asquerosa cena de sexo entre irmãos canibais. Uma boa idéia também é a critica constante aos reality shows, mostrando a falta de caráter e personalidade dos participantes, assim como a manipulação dos acontecimentos (uma cena de sexo é programada entre os participantes, sem nada de natural). O filme também questiona, de forma menos explícita, a “hipocrisia cristã” em relação a alimentação, quando a família canibal faz uma oração, antes de devorar seu prato predileto.

Apesar de todas as obviedades de “Floresta do Mal”, o bom desempenho do DVD ao redor do mundo e algumas boas críticas tornaram viável a produção de uma nova continuação, prevista para 2008 com direção do mesmo Joe Linch. No Brasil, a versão em DVD, denominada “UNRATED” (sem censura), traz como material extra o making of, trilha de áudio com comentários e dois pequenos documentários chamados “Nas Locações com P-Nut” e
“Fazendo o Esquartejamento Ter Uma Boa Aparência”.

“Floresta do Mal”, na melhor das hipóteses, pode ser considerado uma boa homenagem aos primeiros trabalhos dos cineastas Wes Craven e Tobe Hooper. Esta homenagem (reciclagem ou plágio, como preferirem) fica evidente na seqüência do jantar, quando a “visita” se vê obrigada a provar o prato principal a base de carne humana (a ironia: ela é vegetariana). Algo muito próximo ao que foi visto em “O Massacre da Serra Elétrica”, de Hooper. Uma outra citação é a camiseta preta usada por M, com o logotipo “BR” (de “Battle Royalle”, produção japonesa que é indiscutivelmente o melhor filme focando reality shows já realizado).

Enfim, um terror mediano, indicado aos fãs de “gore” explícito e que não sejam muito exigentes quanto ao conteúdo. Estes são brindados com milhares de litros de sangue e toneladas de tripas.

Cotação:
Floresta do Mal (Wrong Turn 2: Dead End, EUA/Canadá, 2007).
Direção: Joe Lynch.
Roteiro: Turi Meyer e Al Septien.
Produção: Jeff Freilich.
Produção Executiva: Erik Feig.
Edição: Ed Marx.
Desenho de Produção: Brentan Harron.
Direção de Arte: Kirsten Franson.
Maquiagem: Angelina P. Cameron, Stan Edmonds, Vanessa Giles, Keith Lau e Shauna Magrath.
Figurino: Hisami Yamamoto.
Fotografia: Robin Loewen.
Música: Bear McCreary.
Elenco: Erica Leerhsen (Nina Papas), Henry Rollins (Dale Murphy), Texas Battle (Jake Washington), Daniella Alonso (Amber), Steve Braun (Jonesy), Aleksa Palladino (Mara), Crystal Lowe (Elena), Matthew Currie Holmes (M), Kimberly Caldwell (Kimberly), Ken Kirzinger (Pa), Wayne Robson (homem velho), Jeff Scrutton (Three-Finger), Clint Carleton (irmão), Rorelee Tio (irmã), Ashlea Earl (Ma), Cedric De Souza (Neil), John Stewart (Wojo) e Bro Gilbert (Chris).

Conto # 01: Afogadouro

Depois de esgotadas as duas primeiras edições da coletânea de contos "Ódio" e um segundo projeto em andamento, estou disponibilizando abaixo um dos contos. Críticas são muito bem-vindas.

Afogadouro

"O ódio é o produto tanto das boas obras como das infames."
(Maquiavel)

Demorei um tempo para entender o que estava acontecendo. Não sentir as pernas era um mau sinal. Com muito esforço e uma dor quase insuportável, consegui mover os braços e limpar o sangue que cobria o meu rosto. Mesmo podendo enxergar, ainda não via a extensão dos meus problemas. Minha cabeça doía muito e pensar não era uma tarefa, digamos, muito fácil. Um gosto amargo de ferrugem me embrulhava o estômago. Bom sinal: ainda tinha estômago. E um pouco de humor. Estava no meu carro. E o meu mundo estava de pernas o para ar, literalmente.

Havia sofrido um acidente. E estava preso nas ferragens. E pelo pouco que podia ver, meu Golzinho velho estava tombado. Tentava buscar algum flashback que me explicasse o que realmente tinha acontecido. Tipo aqueles de Hollywood, em preto-e-branco. Mas nada passava nesta minha cabeça atordoada. Do lado de fora tudo o que eu via era mato e, bem ao longe, uma estrada. Meu coração começou então a bater mais forte. Tentei manter a calma. Pois acho que antes de morrer, o coração bate mais forte e depois pára. E eu não queria morrer. Tinha um bom motivo para isso, embora não lembrasse qual. A rodovia ao longe. Mato. Foi fácil deduzir: por algum motivo havia saído da estrada e capotado. E o carro caíra numa vala. Destas malditas que existem ao redor das estradas. Meu coração batia um pouco mais devagar, mas estável.

Estava com sede. Sinal de morte iminente? Não sei. Mas acho que a morte se torna uma obsessão quando se está todo arrebentado e preso nas ferragens de seu carro no meio do nada. Tentei mover as pernas (aquelas que eu não sentia), mas foi em vão. Acho que todo o meu sangue já havia descido até a cabeça, nesta hora. Minha avó falava que isso podia matar, mas ela era meio exagerada e a situação não era tão ruim. Era só esperar pelo resgate. No meio do nada.

Passaram-se alguns minutos. Algumas horas. Cheguei à conclusão de que o resgate não iria me encontrar tão facilmente. Eu estava longe da estrada. Era noite. E principalmente porque não passava um filha-da-puta sequer naquele fim de mundo. Bom, neste momento, o medo de morrer pelos ferimentos passou. O medo agora era morrer de fome, de sede ou de vontade de ir ao banheiro. Ou talvez de enlouquecer.

Foi aí que resolvi buscar outro flashback daqueles. Lembrar algo de bom que havia acontecido antes. Puta-que-o-pariu! Estiquei o braço, abri o porta-luvas e lá estava o bilhete premiado da loteria. Vários milhões. Carro novo (importado, lógico). Mulheres. Uma lancha. Mulheres. Viagens. Mulheres. Uma guitarra igual a que Hendrix tacou fogo em Woodstock! 4, 8, 15, 16, 23 e 42! Bom, agora eu tinha certeza. Eu não poderia morrer mesmo.

O tempo passava e nada. Minha boca estava totalmente seca. Comecei a ficar com muita sede. Foi aí que tive a idéia mais estúpida de minha vida: rezar. Sei que nunca acreditei muito nestas coisas, mas nesta situação, valia tudo. Pedi para Deus um copo de água. Sempre ouvi que um copo d’água não se nega a ninguém. Deus me respondeu rapidinho. Começou a chover. Algumas gotinhas. Algumas gotonas. Um puta temporal. Daí eu vi que a bosta tava feita. A vala começou a encher de água. E meu Golzinho também. Minha sede ia passar e eu ia morrer afogado!

Merda! Merda! Merda! Eu tinha que pensar rápido. Deus não era tão ruim assim e tinha me dado um pouco de inteligência. Foi dolorido, mas consegui fechar o vidro da janela. Reparei que faltava uma unha em um dos dedos. Rapidamente contei. Bom, pelo menos, os dez dedos estavam ali. Os da mão. Os do pé, infelizmente não podia ver. Sei que foi uma cagada capotar o carro e os vidros ainda estarem inteiros. Mas não era hora de questionar o meu destino. Ali estava eu: com sede, arrebentado, preso nas ferragens e com o carro sendo submerso pela água.

Tentei evitar pensamentos do tipo: o vidro pode estourar, a água invadir o interior do carro e eu morrer afogado e de ponta cabeça. Mas eu tinha um trunfo: eu era rico agora. E até onde eu sei os ricos sempre se dão bem. Podia então estar sonhando. Não haveria acidente nenhum. Não haveria dor, nem unha faltando, nem morte iminente. Seria um pesadelo e eu só precisava acordar. Mas merda! Se fosse um sonho eu também não teria ganhado na loteria. Estaria vivo, pobre e fodido.

Ainda chovia, mas o temporal tinha virado uma pequena garoa. Estava perdendo as esperanças quando vi uns faróis na estrada. Como não tinha aprendido a lição, resolvi rezar novamente. Deus mostrou sua eficiência e o carro, que já havia passado do ponto mais próximo ao meu acidente, deu meia-volta e encostou. Estava salvo. E rico. Daria um presente para meu salvador. Pelo menos 100 reais. A sede passou e tive a impressão do meu dedão do pé se mexer. Estava salvo, rico e com o dedão do pé!

Achei estranho quando o motorista saiu do carro carregando uma marreta. Foi neste instante que um flashback forçado sacudiu minha cabeça. Destes irritantes que num filme explicam o final surpresa para os espectadores mais burros. Eu não havia ganhado na loteria. Eu havia roubado o bilhete. Roubei de um nerd maldito do meu serviço. O cara nem gostava de mulher. Pra que iria querer tanta grana? Quando meus pensamentos ficaram coloridos de novo, ele já estava dentro da vala, com a água até o joelho, a boca espumando e uma marreta gigante nas mãos. Não sei por que entendi que ele não estava ali para me salvar. Foi só o tempo de ouvir o estouro na janela do meu lado. Em segundos a água invadiu o interior do carro. E lá estava eu: pobre e afogado.

Resenha # 13: Epidemia de Zumbis

Sir James Forbes, médico e professor da Faculdade de Londres recebe uma carta desesperada de um ex-aluno, o Dr. Peter Tompson, pedindo ajuda para identificar e controlar uma extranha doença que matou várias pessoas em seu vilarejo. Sir James e Sylvia, sua filha, partem para Cornualha e acabam encontrado um terrível mistério: o corpo dos mortos pela extranha doença desapareceram. Magia negra, mortos-vivos e muito suspense ambientado na Europa do século XVIII.

Incursão da produtora Hammer no gênero "Zumbi" inspirada no clássico "Zumbi Branco" (White Zombie, de 1932, estrelado por Bela Lugosi). O último filme de horror a não sofrer influência do clássico absoluto "A Noite dos Mortos-vivos" de George Romero (Epidemia de Zumbis é de 1966 enquanto o filme de Romero é de 1968). Aqui os zumbis são resultados de magia negra e são na verdade escravos de um sinistro fidalgo. Impecável qualidade técnica somada a um bom roteiro resultando numa das melhores produções da Hammer. Lançado em DVD no Brasil pela Works.
Cotação:

Epídemia de Zumbis (The Plague of the Zombies, 1966, Inglaterra)

Direção: John Gilling.
Roteiro: Peter Bryan.
Produção: Anthony Nelson-Keys.
Música: James Bernard.
Figurino: Melissa Toth.
Direção de Arte: Don Mingaye.
Edição: Chris Barnes.
Duração: 90 min.
Distribuíção: Em pela Works Editora.
 
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