Conto # 01: Afogadouro

Depois de esgotadas as duas primeiras edições da coletânea de contos "Ódio" e um segundo projeto em andamento, estou disponibilizando abaixo um dos contos. Críticas são muito bem-vindas.

Afogadouro

"O ódio é o produto tanto das boas obras como das infames."
(Maquiavel)

Demorei um tempo para entender o que estava acontecendo. Não sentir as pernas era um mau sinal. Com muito esforço e uma dor quase insuportável, consegui mover os braços e limpar o sangue que cobria o meu rosto. Mesmo podendo enxergar, ainda não via a extensão dos meus problemas. Minha cabeça doía muito e pensar não era uma tarefa, digamos, muito fácil. Um gosto amargo de ferrugem me embrulhava o estômago. Bom sinal: ainda tinha estômago. E um pouco de humor. Estava no meu carro. E o meu mundo estava de pernas o para ar, literalmente.

Havia sofrido um acidente. E estava preso nas ferragens. E pelo pouco que podia ver, meu Golzinho velho estava tombado. Tentava buscar algum flashback que me explicasse o que realmente tinha acontecido. Tipo aqueles de Hollywood, em preto-e-branco. Mas nada passava nesta minha cabeça atordoada. Do lado de fora tudo o que eu via era mato e, bem ao longe, uma estrada. Meu coração começou então a bater mais forte. Tentei manter a calma. Pois acho que antes de morrer, o coração bate mais forte e depois pára. E eu não queria morrer. Tinha um bom motivo para isso, embora não lembrasse qual. A rodovia ao longe. Mato. Foi fácil deduzir: por algum motivo havia saído da estrada e capotado. E o carro caíra numa vala. Destas malditas que existem ao redor das estradas. Meu coração batia um pouco mais devagar, mas estável.

Estava com sede. Sinal de morte iminente? Não sei. Mas acho que a morte se torna uma obsessão quando se está todo arrebentado e preso nas ferragens de seu carro no meio do nada. Tentei mover as pernas (aquelas que eu não sentia), mas foi em vão. Acho que todo o meu sangue já havia descido até a cabeça, nesta hora. Minha avó falava que isso podia matar, mas ela era meio exagerada e a situação não era tão ruim. Era só esperar pelo resgate. No meio do nada.

Passaram-se alguns minutos. Algumas horas. Cheguei à conclusão de que o resgate não iria me encontrar tão facilmente. Eu estava longe da estrada. Era noite. E principalmente porque não passava um filha-da-puta sequer naquele fim de mundo. Bom, neste momento, o medo de morrer pelos ferimentos passou. O medo agora era morrer de fome, de sede ou de vontade de ir ao banheiro. Ou talvez de enlouquecer.

Foi aí que resolvi buscar outro flashback daqueles. Lembrar algo de bom que havia acontecido antes. Puta-que-o-pariu! Estiquei o braço, abri o porta-luvas e lá estava o bilhete premiado da loteria. Vários milhões. Carro novo (importado, lógico). Mulheres. Uma lancha. Mulheres. Viagens. Mulheres. Uma guitarra igual a que Hendrix tacou fogo em Woodstock! 4, 8, 15, 16, 23 e 42! Bom, agora eu tinha certeza. Eu não poderia morrer mesmo.

O tempo passava e nada. Minha boca estava totalmente seca. Comecei a ficar com muita sede. Foi aí que tive a idéia mais estúpida de minha vida: rezar. Sei que nunca acreditei muito nestas coisas, mas nesta situação, valia tudo. Pedi para Deus um copo de água. Sempre ouvi que um copo d’água não se nega a ninguém. Deus me respondeu rapidinho. Começou a chover. Algumas gotinhas. Algumas gotonas. Um puta temporal. Daí eu vi que a bosta tava feita. A vala começou a encher de água. E meu Golzinho também. Minha sede ia passar e eu ia morrer afogado!

Merda! Merda! Merda! Eu tinha que pensar rápido. Deus não era tão ruim assim e tinha me dado um pouco de inteligência. Foi dolorido, mas consegui fechar o vidro da janela. Reparei que faltava uma unha em um dos dedos. Rapidamente contei. Bom, pelo menos, os dez dedos estavam ali. Os da mão. Os do pé, infelizmente não podia ver. Sei que foi uma cagada capotar o carro e os vidros ainda estarem inteiros. Mas não era hora de questionar o meu destino. Ali estava eu: com sede, arrebentado, preso nas ferragens e com o carro sendo submerso pela água.

Tentei evitar pensamentos do tipo: o vidro pode estourar, a água invadir o interior do carro e eu morrer afogado e de ponta cabeça. Mas eu tinha um trunfo: eu era rico agora. E até onde eu sei os ricos sempre se dão bem. Podia então estar sonhando. Não haveria acidente nenhum. Não haveria dor, nem unha faltando, nem morte iminente. Seria um pesadelo e eu só precisava acordar. Mas merda! Se fosse um sonho eu também não teria ganhado na loteria. Estaria vivo, pobre e fodido.

Ainda chovia, mas o temporal tinha virado uma pequena garoa. Estava perdendo as esperanças quando vi uns faróis na estrada. Como não tinha aprendido a lição, resolvi rezar novamente. Deus mostrou sua eficiência e o carro, que já havia passado do ponto mais próximo ao meu acidente, deu meia-volta e encostou. Estava salvo. E rico. Daria um presente para meu salvador. Pelo menos 100 reais. A sede passou e tive a impressão do meu dedão do pé se mexer. Estava salvo, rico e com o dedão do pé!

Achei estranho quando o motorista saiu do carro carregando uma marreta. Foi neste instante que um flashback forçado sacudiu minha cabeça. Destes irritantes que num filme explicam o final surpresa para os espectadores mais burros. Eu não havia ganhado na loteria. Eu havia roubado o bilhete. Roubei de um nerd maldito do meu serviço. O cara nem gostava de mulher. Pra que iria querer tanta grana? Quando meus pensamentos ficaram coloridos de novo, ele já estava dentro da vala, com a água até o joelho, a boca espumando e uma marreta gigante nas mãos. Não sei por que entendi que ele não estava ali para me salvar. Foi só o tempo de ouvir o estouro na janela do meu lado. Em segundos a água invadiu o interior do carro. E lá estava eu: pobre e afogado.

Resenha # 13: Epidemia de Zumbis

Sir James Forbes, médico e professor da Faculdade de Londres recebe uma carta desesperada de um ex-aluno, o Dr. Peter Tompson, pedindo ajuda para identificar e controlar uma extranha doença que matou várias pessoas em seu vilarejo. Sir James e Sylvia, sua filha, partem para Cornualha e acabam encontrado um terrível mistério: o corpo dos mortos pela extranha doença desapareceram. Magia negra, mortos-vivos e muito suspense ambientado na Europa do século XVIII.

Incursão da produtora Hammer no gênero "Zumbi" inspirada no clássico "Zumbi Branco" (White Zombie, de 1932, estrelado por Bela Lugosi). O último filme de horror a não sofrer influência do clássico absoluto "A Noite dos Mortos-vivos" de George Romero (Epidemia de Zumbis é de 1966 enquanto o filme de Romero é de 1968). Aqui os zumbis são resultados de magia negra e são na verdade escravos de um sinistro fidalgo. Impecável qualidade técnica somada a um bom roteiro resultando numa das melhores produções da Hammer. Lançado em DVD no Brasil pela Works.
Cotação:

Epídemia de Zumbis (The Plague of the Zombies, 1966, Inglaterra)

Direção: John Gilling.
Roteiro: Peter Bryan.
Produção: Anthony Nelson-Keys.
Música: James Bernard.
Figurino: Melissa Toth.
Direção de Arte: Don Mingaye.
Edição: Chris Barnes.
Duração: 90 min.
Distribuíção: Em pela Works Editora.

Resenha # 17: Zombie - Despertar dos Mortos

Anne Bowles e um reporter partem em direção a uma ilha tropical à procura do pai, desaparecido misteriosamente. Quando chegam no local se deparam com mortos-vivos sedentos de carne humana.

Os vários Títulos da Obra-Prima de Fulci

"Zombie - Despertar dos Mortos" (1978), o segundo filme da série clássica de zumbis de George Romero, foi lançado por Dario Argento na Itália como "Zombi". Como picaretagem não é exclusividade das distribuidoras brasileiras, os italianos aproveitaram o sucesso comercial do filme de Romero e lançaram o longa de Fulci como "Zombi 2", sugerindo que a trama fosse uma sequência. "Zombi 2" acabou sendo o título adotado em toda a Europa. Já nos Estados Unidos o título escolhido foi "Zombie Flesh Eaters". "Zumbi 2 - A Volta dos Mortos", foi o título adotado no Brasil quando o filme foi lançado em VHS na década de 80. Recentemente, a obra-prima de Fulci foi lançada em DVD por aqui pela Works, recebendo o título definitivo de "Zombie - A Volta dos Mortos".

Fulci - O Mestre

A decisão oportunista de determinar um título que fizesse referência a uma sequência de "Despertar dos Mortos" acabou colocando o filme de Fulci em segundo plano. "Zombie - A Volta dos Mortos", permaneceu, durante muito tempo, com a fama de cópia barata de "Despertar...", como uma sequência inferior do filme de George Romero. Felizmente, o longa, foi aos poucos redescoberto e valorizado pelos fãs do cinema de horror e hoje é considerado um clássico unânime.

O diretor italiano Lucio Fulci é considerado um novo mestre no genêro, podendo ser comparado a Argento ou mesmo Romero. Sua extensa carreira como diretor inclui, além do horror, filmes de ficção científica e comédias. Mas foi no terror que sua filmografia arrebatou uma legião de fãs. Entre 1980 e 1981, Fulci filmou sua enigmática trilogia dos infernos, com "Pavor na Cidade dos Zumbis" (Paura nella città dei morti viventi), "A Casa do Além" (The Beyond/E tu vivrai nel terrore) e "A Casa do Cemitério" (Quella Villa Accanto al Cimitero). Em 1982 realizou sua versão para Jack, o estripador em "O Estripador de Nova Iorque". Infelizmente Lucio Fulci faleceu em 1996.

"Zombie - A Volta dos Mortos" é um filme realizado com poucos recursos, considerados pela crítica, trash, e pelos amantes do terror, uma obra-prima. Ficou famoso pelas sequências violentas e por introduzir mortos-vivos putrefatos, com vermes saindo de suas entranhas, levantando de suas covas. Até então, nem os zumbis de Romero eram apresentados em decomposição. E duas sequências tornaram-se antológicas por sua beleza plástica. Em uma delas, um morto-vivo se degladia com um tubarão. A sequência é plasticamente muito bonita e a trilha sonora composta por Fabio Frizzi e Giorgio Tucci a torna mais onírica ainda, por mais absurda que parece a premissa de um zumbi versus tubarão. Em outra, mais apocalíptica, uma legião de mortos-vivos marcham em direção a Nova York.

O mais incrível, é que apesar do orçamento limitado, o realismo impresso nas cenas de violência é impressionante, ainda mais quando lembramos que ainda não existia cgi na época. Fulci, como muito dos cineastas italianos, ficou famoso pela violência gráfica e desenfreada, sem pudor ou qualquer procupação com censura ou em agradar ao público. O resultado, uma obra única e estilizada.

O Elenco e o Roteiro

O elenco é composto por atores praticamente desconhecidos e a fraca atuação destes não interfere na qualidade final do filme. O elenco principal é mesmo a legião de mortos-vivos, estes sim, esbanjam talento, atingindo a todos os estômagos, até aos mais calejados. O visual decomposto dos zumbis passou a ser usual nos próximos filmes do genêro, inclusive no terceiro filme da saga de Romero, "O Dia dos Mortos". Antes de "Zombie", os mortos-vivos eram apresentados apenas como pessoas comuns, cambaleando e com o rosto azul ou branco. A maquiagem tornou-se muito mais sofisticada após o filme de Fulci.

A trama, assim como nos filmes da saga de Romero, não explica a origem dos zumbis. Em alguns momentos, os nativos da ilha onde a história se desenvolve falam em vodu, mas a teoria não é confirmada em nenhum momento. O roteiro é simples e se desenvolve linearmente sem nenhuma reviravolta. Algumas questões permanecem inexplicadas e rendem alguma discussão, porém a falta de criatividade no roteiro é compensada pela violência explícita.

Diversas pseudo-continuações foram lançadas nos anos que se seguiram. O próprio Fulci se juntou ao também italiano Bruno Mattei na direção do terrível "Zombi 3" em 1988. Pra variar, não é continuação e só tem em comum com "Zombie" os mortos-vivos. "Zombie 4 - After Death" e "Zombie 5 - Killing Birds" também são falsas continuações (o primeiro na verdade chama-se "After Death", e foi realizado em 1988, no mesmo ano de "Zombi 3"), e "Killing Birds" foi realizado em 1987 (um ano antes de "Zombi 3"). Dá pra acreditar em tanta picaretagem??

Enfim, "Zombie - A Volta dos Mortos" é uma obra única imitada a exaustão nos anos 80. Não é um filme cabeça, mas é belo, violento e divertido.

Cotação:
Zombie - A Volta dos Mortos (Zombie, Itália, 1979)

Direção: Lucio Fulci.
Roteiro: Dardano Sacchetti e Elisa Briganti.
Produção: Fabrizio De Angelis e Ugo Tucci.
Música: Fabio Frizzi e Giorgio Tucci.
Fotografia: Sergio Salvati.
Edição: Vincenzo Tomassi.
Efeitos Especiais: Giovanni Corridori, Gino De Rossi e Roberto Pace.
Figurino: Giannetto De Rossi, Mirella De Rossi, Maurizio Trani e Rosario Prestopino.
Elenco: Tisa Farrow (Anne Bowles), Ian McCulloch (Peter West), Richard Johnson (Dr. David Menard), Al Cliver (Brian Hull), Auretta Gay (Susan Barrett), Stefania D'Amario (Missey, a enfermeira) e Olga Karlatos (Paola Menard).
Duração: 91 mins.
Distribuição: Em DVD pela Works.

Resenha # 16: O Caçador de Bruxas

Em 1645 a Inglaterra vive o caos de uma guerra civil. Não há ordem e os juízes locais governam a mão e ferro. É neste cenário que viveu Matthew Hopkins (Vincent Price), um cruel e violento auto-intitulado caçador de bruxas. Inocentes eram torturadas e pagavam com a morte por seu supostos envolvimentos com bruxaria. Quando a jovem Sarah é presa sob a acusação de bruxaria, seu namorado, o soldado Richard Marshall parte atrás de Hopkins em busca de vingança.

O que torna este longa mais interessante é o fato do personagem Matthew Hopkins ter realmente existido. Hopkins cometeu as maiores atrocidades durante o reinado de Oliver Cromwell, na Inglaterra puritana do século XVII. Torturava e executava inocentes por supostos envolvimentos com feitiçaria.

Um dos pontos altos desta produção é a ótima fotografia, com locações em Norfolk e Sulfolk, belas pastagens contrastando com a violência e a intolerância proposital de Hopkins. O elenco é encabeçado pelo sempre ótimo Vincent Price, num dos melhores papéis de sua carreira.

É o terceiro filme do diretor Michael Reeves, que viria a se suicidar algum tempo depois, aos 26 anos. Reeves dirigira anteriormente "Revenge of Bloody Beast" (com Barbara Steele) e "Sob o Poder da Maldade" (com Boris Karloff). O Edgar Allan Poe do título em inglês nada mais é do que oportunismo desnecessário da distribuidora. Os filmes de Roger Corman, baseado em obras de Poe, faziam muito sucesso na época. Porém não existe nenhuma ligação entre o longa e o poema "Conqueror Worm", de Poe.

O filme foi lançado em DVD no Brasil pela Works Editora, como parte integrante da coleção lançada nas bancas Darkside DVD (que lançou anteriormente vários títulos da produtora inglesa Hammer). Para ter na prateleira e curtir.

Cotação:


O Caçador de Bruxas (Edgar Allan Poe's Conqueror Worm, 1968, EUA)

Direção: Michael Reeves.
Roteiro: Michael Reeves e Tom Baker baseado num poema de Edgar Allan Poe e no livro “Witchfinder General" de Ronald Basset.
Produção: Tony Tenser e Louis M. Heyward.
Música: Paul Ferris.
Direção de Arte: Jim Morahan.
Edição: Howard Lanning.
Elenco: Vincent Price (Matthew Hopkins ), Ian Ogilvy (Richard Marshall), Rupert Davies (John Lowes), Hilary Heath (Sarah Lowes), Robert Russell (John Stearne), Nicky Henson (Trooper Robert Swallow), Tony Selby (Tom Salter), Bernard Kay (Fisherman), Michael Beint (Capt. Gordon) e Godfrey James (Webb).
Duração: 87 min.

Resenha # 15: Bubba Ho-Tep

Elvis Presley (Bruce Campbell) e o presidente John F. Kennedy (Ossie Davis) não morreram. Estão bem vivos, morando numa casa de repouso perdida no leste do Texas. Elvis estava cansado da fama e da vida fútil, então decidiu trocar de lugar com um imitador enquanto JFK, tornou-se negro e teve sua morte encenada pelo seu sucessor, o presidente Lyndon Johnson. Será verdade ou serão apenas dois velhos malucos? E pra complicar uma múmia devoradora de almas caminha pelos corredores escuros da casa de repouso, atrás de presas fáceis. Agora os dois velhotes vão provar que independente de quem são, lutarão como heróis pela sobrevivência de seus amigos e deles próprios.

Bubba Ho-Tep é uma das produções independentes mais festejadas dos últimos anos. Dirigido por Don Coscarelli (da série de filmes "Fantasma"), o longa agrada pelo ótimo roteiro, uma mistura de horror, aventura e comédia. O próprio Don Coscarelli adaptou brilhantemente o conto de Joe R. Lansdale. Com Bubba Ho-Tep, Coscarelli e Bruce Campbell provam que estão em excelente fase, provavelmente o melhor trabalho dos dois, pelo menos até agora. Campbell, já conhecido pelos fãs por trabalhos na cultuada série "Evil Dead", faz uma interpretação memorável de Elvis, encarnando um Rei do Rock humano e arrependido dos erros cometidos na juventude, e que encontra forças para se redimir enfrentando o ser maligno que se esconde nos porões do asilo.

O filme transcende os gêneros horror ou humor, sendo diversas vezes tocante, apresentando dois personagens esquecidos e abandonados num asilo, fato comum na vida real. Bubba Ho-Tep abocanhou vários prêmios nos diversos festivais de cinema fantástico dos quais participou ao redor do mundo e já pode ser considerado "cult", por ser um dos filmes mais bacanas lançados nos últimos tempos.

Cotação:
Bubba Ho-Tep (Bubba Ho-Tep, 2002, EUA)
Direção: Don Coscarelli.
Roteiro: Don Coscarelli baseado no conto de Joe R. Lansdale.
Produção: Don Coscarelli e Jason R. Savage.
Música: Brian Tyler.
Desenho de Produção: Vicent Peranio.
Direção de Arte: Justin Zaharczuk.
Edição: Scott J. Gill e Donald Milne.
Elenco: Bruce Campbell (Elvis ), Ossie Davis (Jack), Reggie Bannister (Erika), Bob Ivy (Tristen), Ella Joyce (A enfermeira), Heidi Marnhout (Callie), Larry Pennell (Kemosabe) e Harrison Young (Bull Thomas).
Distribuição: Inédito no Brasil.

Resenha # 14: O Homem de Palha

O oficial da polícia escocesa Howie viaja para a remota ilha de Summersisle com a missão de investigar a denúncia do desaparecimento de uma criança. Na ilha, todos o tratam friamente e negam a existência de tal garota. Quanto mais investiga, mais confuso fica Howie. A ilha parece ser uma comunidade pagã, onde adoram-se diversos deuses e prega-se o amor livre. Howie desconfia que um crime possa ter sido cometido na ilha, e suas investigações o levam a um confronto com o líder espiritual da ilha, Lord Summerisle.

O diretor Robin Hardy conseguiu, com “O Homem de Palha”, ultrapassar o limite do horror pragmático do começo da década de setenta, quando ainda reinavam os últimos vampiros da lendária Hammer. E embora a recepção do público e da crítica tenha sido um tanto quanto fria na época de seu tumultuado lançamento, o longa acabou redescoberto com o passar dos anos e atraiu gradualmente o que se tornaria uma verdadeira legião de fãs.

“O Homem de Palha” é um filme de terror pouco convencional. Sem sangue e sem mortes. A deslumbrante concepção visual é o ponto forte do longa, que capricha no visual onírico e perturbador. A personagem central explora um universo desconhecido e bizarro, que se opõe completamente a sua educação conservadora e religiosa. Este embate de crenças, entre o cristianismo e o paganismo, é o conflito em que se centra a trama. A sexualidade, oprimida pelas religiões cristãs, é explícita desde os primeiros momentos do filme. A insinuação sexual, e as cenas de nus femininos, que parecem desnecessárias e oportunistas a princípio, tornam-se apenas mais um fator de estranheza, num cenário lírico e cheio de símbolos. A trama, que começa despretensiosa, evolui de forma surpreendente de policial para o verdadeiro horror. A atmosfera, a sensação crescente de solidão e deslocamento da personagem central, transporta o espectador para o universo pagão do filme. O inevitável e inesperado final surge como um anticlímax perturbador e nada convencional.
A curiosa trilha sonora, composta por Paul Giovanni, inclui verdadeiras canções celtas de exaltação a fertilidade feminina. Mais um ingrediente na atmosfera lúgubre do filme.

O elenco é encabeçado pelo aristocrático Edward Woodward, que interpreta o Sargento Howie, um íntegro e religioso oficial da polícia escocesa. O lendário Christopher Lee, imortalizado como o Conde Drácula, interpreta magistralmente o líder religioso e político Lord Summerisle.

Considerado por muitos críticos uma obra-prima do moderno cinema de horror, “O Homem de Palha” permanece ousado e provocativo. É essencial para todo amante da sétima arte, principalmente diante do oportunista remake de 2006 protagonizado por Nicolas Cage (chamado de "O Sacrifício").
Cotação:

O Homem de Palha (The Wicker Man, 1974, Inglaterra)
Direção: Robin Hardy.
Roteiro: Anthony Shaffer.
Produção: Peter Snell.
Fotografia: Harry Waxman.
Maquiagem: Billy Partleton.
Música: Paul Giovanni.
Edição: Eric Boyd-Perkins.
Elenco: Christopher Lee (Lord Summerisle), Edward Woodward (Sargento Howie), Britt Ekland (Willow), Ingrid Pitt (Bibliotecária), Diane Cilento (Srta. Rose), Lindsay Kemp (Alder MacGregor), Russell Waters (Mestre do Porto), Aubrey Morris (Coveiro), Irene Sunters (May Morrison), Geraldine Cowper (Rowan Morrison) e Donald Eccles (T. H. Lennox).
Distribuição: Em DVD pela Works.

Resenha # 12:. A Festa do Monstro Maluco

O Barão e cientista Boris von Frankenstein, líder da Organização Mundial dos Monstros, acaba de fazer a maior descoberta de sua carreira como vilão. Uma fórmula secreta capaz de destruir qualquer matéria. Após o grande feito, o Barão decide se aposentar enquanto está no auge. Ele reúne, em uma festa em sua ilha particular, uma galera um tanto quanto esquisita. Entre os convidados estão o Conde Drácula, o Lobisomem, Dr. Jekyll e Sr. Hyde, a Múmia, o Homem Invisível, o Corcunda de Notre Dame, o Monstro da Lagoa Negra, a Criatura de Frankenstein e sua Noiva. Durante a reunião, o Barão decide anunciar seu sobrinho, o jovem e ingênuo Felix Flankin, como seu sucessor. Mas a galera do mal arma um plano para acabar com o herdeiro do cientista, roubar sua fórmula secreta e tomar o posto de líder dos monstros.

"A Festa do Monstro Maluco" é com certeza um dos mais cultuados longametragens de animação de bonecos (tudo bem, não existem tantos assim, mas isso não retira seu status de cult). Presença obrigatória nas Sessões da Tarde da década de 70, influenciou diretamente e indiretamente, entre outros, cineastas como Tim Burton ( "O Estranho Mundo de Jack" e "A Noiva Cadáver"). Uma pequena jóia da história do cinema, filmado em stop-motion (também batizado de animagic), "A Festa do Monstro Maluco" foi realizado por uma trupe da pesada: a direção ficou a cargo de Jules Bass (que dirigiu outro cult do stop-motion, "Rudolph, a Rena do Nariz Vermelho"), o roteiro é de Harvey Kurtzman (criador da revista Mad), os personagens foram desenhados por Jack Davis (entre seus trabalhos estão a Mad e a Tales from the Crypt), os posters e anúncios da divulgação foram ilustrados por Frank Frazetta e a voz do Barão Von Frankenstein foi dublada por nada menos do que o lendário Bóris Karloff (em um de seus últimos trabalhos).

O filme em si, é uma deliciosa mistura de comédia, terror e musical. A trilha sonora é composta de jazz e rock. Num desses momentos inesquecíveis, uma simpática banda de esqueletos toca uma divertida canção chamada "Mummy" (em "A Noiva Cadáver" há uma sequência muito parecida). Enfim, altamente indicado para crianças e para nós, crianças crescidas.

Cotação:

A Festa do Monstro Maluco (Mad Monster Party, 1967, EUA)

Direção: Jules Bass.
Roteiro: Len Korobkin, Harvey Kurtzman e Arthur Rankin Jr..
Produção: Joseph E. Levine, Arthur Rankin Jr. e Larry Roemer.
Fotografia e Animação: Tad Mochinaga.
Coreógrafo: "Killer Joe" Piro.
Desenho dos personagens: Jack Davis.
Música: Maury Laws.
Edição: Tad Mochinaga.
Elenco: Boris Karloff (Barão Boris von Frankenstein, voz), Allen Swift (Felix Flankin/Yetch/Dracula/Invisible Man/Dr. Jekyll/Sr. Hyde, vozes) e Gale Garnett (Francesca, voz).
Duração: 94 mins.
Distribuição: Em DVD pela Works.

Resenha # 11: A Seita


O corpo mutilado de uma garotinha é encontrado num tonel de água. Os laudos da perícia concluem que a criança é a filha desaparecida de Claudia. Cinco anos depois, Claudia recebe uma ligação desesperada de uma jovem dizendo ser sua filha. Ela se une então ao poilicial responsável pelo caso de sua filha na época do crime. Juntos se envolvem numa perigosa investigação, que os leva ao encontro de uma seita chamada "Os Sem-nome".

O diretor e roteirista espanhol Jaume Balagueró é o também responsável pelo thriller "A Sétima Vítima" (Darkness, 2002). Tanto "A Seita" quanto "A Sétima Vitíma" abordam de forma interessante o tema "seitas diabólicas".

Em "A Seita", o próprio Balagueró constrói o brilhante roteiro, adaptado da história original de Ramsey Campbell. No desenrolar da trama as informações são dosadas e nem tudo é explicado, instigando sempre a imaginação do expectador, diferentemente do cinema norte-americano, onde tudo é explicado diversas vezes, como se o público fosse estúpido e ignorante (desculpem, mas não resisti em fazer tal comentário). Além dos diálogos bem trabalhados e algumas sequências de violência explícita (só para ilustrar, imagine um mamilo arrancado com um alicate), o final desconcertante e pessimista é o grande ápice de "A Seita".

Vencedor de dezenas de premiações ao redor do mundo, entre eles o grande prêmio de fantasia européia no FESTIVAL INTERNACIONAL DA CATALUNHA (além do prêmio de atriz para Emma Vilarasau e fotografia para Xavi Giménez), melhor filme estrangeiro no FESTIVAL DE CINEMA FANT-ASIA, melhor filme no FANTAFESTIVAL, prêmio de direção e crítica no FANTASPORTO e de filme no FESTIVAL DE CINEMA FANTÁSTICO DE BRUXELAS.

Indo novamente contra os padrões ianques, a ausência de ação em "A Seita", infelizmente acaba sendo o ponto de desagrado para a maioria do público não familiarizado com as produções européias. Mas o roteiro bem desenvolvido, o elenco dedicado e competente e a direção segura de Jaume Balagueró garantem "A Seita" um status grande filme, ainda que ignorado pelo grande público e pela crítica "mainstream".

Com "A Seita" e "A Sétima Vítima", Jaume Balagueró junta-se a Alejandro Amenábar ("Tesis", "Abra Los Ojos" e "Os Outros") e Álex de la Iglesia ("O Dia da Besta" e "A Comunidade"), como princípais representantes da boa safra de novos diretores espanhois dedicados ao fenêro fantástico.

cotação

A Seita (Los Sin Nombre, The Nameless, 1999, Espanha)
Direção: Jaume Balagueró.
Roteiro: Jaume Balagueró baseado na obra de Ramsey Campbell.
Produção: Jaume Balagueró, Carlos Fernández, Julio Fernández e Joan Ginard. Fotografia: Albert Carreras Xavi Giménez.
Edição: Luis De La Madrid.
Música: Carles Cases.
Direção de Arte: Matías Tikas.
Elenco: Emma Vilarasau (Claudia Horts de Gifford), Karra Elejalde (Bruno Massera), Tristán Ulloa (Quiroga), Toni Sevilla (Franco), Brendan Price (Marc Gifford), Jordi Dauder (Patologista), Núria Cano (Policial), Isabel Ampudia (Secretária) e Pep Tosar (Toni).
Duração: 102 mins.
Distribuição: Em DVD pela LK- Tel Vídeo.

Resenha # 10: Noite de Pânico/Sozinho no Escuro

Acompanhar o cotidiano de perigosos internos faz parte da rotina do psiquiatra Dr. Potter em seu novo emprego. Profetas, lunáticos, assassinos, estupradores estão trancados no último andar do hospital estadual para doentes mentais. Toda a segurança do local é eletrônica, todas as portas e janelas são ativadas (abrem ou fecham) por um dispositivo inteligente. Entre os pacientes mais perigosos do setor estão Frank (Jack Palance), o Pastor Byron (Martin Landau) e Ronald (Lidth), um molestador de crianças. O diretor do hospital é Dr. Bain (Donald Pleasence), um homem pacato e respeitado pelos internos.

O pesadelo, para Dr. Potter e sua família começa quando os internos, liderados pelo violento Frank, começam a suspeitar que Potter assassinou o antigo psiquiatra (o que fica claro, desde o princípio, não passar de "loucura"). A situação fica realmente preta ("piadinha infame") quando um black-out deixa toda a região sem energia elétrica. Com a falta da eletricidade, o equipamento de segurança do hospital entra em pane e diversos internos escapam. Inclusive os perigosos Frank, Pastor Byron e Ronald, que planejam uma terrível vingança contra o Dr. Potter, quem eles julgam ser um assassino. É apenas o começo de uma noite de pânico.

"Noite de Pânico", foi o título usado pela distribuidora na época do VHS. Lançado em DVD recentemente pela Works, "Alone in the Dark" recebeu um título que é a tradução literal de seu original: "Sozinho no Escuro" (não confundir com o terrível "Alone in the Dark", de Uwe Boll). Dirigido por Jack Sholder, de "A Hora do Pesadelo 2" e "The Hiden - O Escondido", "Sozinho no Escuro" passou despercebido pela década de 80. A direção de Sholder é convencional, mas competente. O elenco é o ponto forte do filme. Afiadíssimo, ele consegue reunir astros como Jack Palance (interpretou o Conde em "Drácula", de Dan Curtis), Martin Landau (que interpretou Bela Lugosi em "Ed Wood", de Tim Burton) e Donald Pleasence (o persistente Dr. Loomis, da série "Halloween"). Conta ainda com Dwight Schultz, como Dr. Dan Potter. Como? Não se lembram de Dwight? É, é ele mesmo. O Capitão Murdock, da série "Esquadrão Classe A" (ok, nem todo mundo tem mais de trinta).

Por fim, "Sozinho no Escuro" é um grande filme desconhecido, não só pelo elenco, mas também pelo roteiro, que em determinado momento lembra "A Noite dos Mortos Vivos" de Romero. Todos os loucos estão lá fora. E estão sedentos por sangue.

cotação:
Noite de Pânico/Sozinho no Escuro (Alone in the Dark, 1982, EUA)

Direção: Jack Sholder.
Roteiro:
Jack Sholder, Robert Shaye e Michael Harrpster.
Produção: Benni Korzen, Sara Risher e Robert Shaye.
Fotografia: Joseph Mangine.
Música: Renato Serio.
Edição: Arline Garson.
Elenco: Jack Palance (Frank Hawkes), Donald Pleasence (Dr. Leo Bain), Martin Landau (Pastor Byron Sutcliff), Dwight Schultz (Dr. Dan Potter), Erland van Lidth (Ronald "Gordo" Elster), Deborah Hedwall (Nell Potter), Lee Taylor-Allan (Toni Potter), Phillip Clark (Tom Smith), Elizabeth Ward (Lyla Potter) e Brent Jennings (Ray Curtis).
Duração: 92 mins.
Distribuição: Em DVD pela Works.

Resenha # 09: A Companhia dos Lobos

A adolescente Rosaleen é atormentada por pesadelos envolvendo lobisomens. Numa viagem sobrenatural a um mundo de fantasia, a jovem vai encarar um destino cruel e inevitável.

“Uma menina, uma história para dormir. O cenário familiar da infância. E contida nos lobos estão as forças do mal que irão triunfar sem um final feliz. Mas este não é um conto de fadas. É aqui que a lenda termina e começa a sobrevivência, mas os sonhos infantis não prometem o final feliz. A criança não é um adulto e o lobo não é humano. Este é o mundo sombrio que há entre as páginas dos contos de fadas. Negá-lo é matar a criança que existe na alma. Entrar nele é matar os sonhos de infância. A Companhia dos Lobos é a companhia que temos, mesmo em nossos sonhos.”

Uma jornada visual e onírica, cheio de simbolismo. Um dos melhores filmes de horror/fantasia da década de oitenta. Com roteiro inspirado na fábula Chapeuzinho Vermelho, o longa narra de forma simbólica os desejos, a culpa e as dúvidas surgidas na adolescência. Pesadelos e realidade se misturam, sempre tendo como ponto em comum os lobisomens. Seriam estes lobos, que rasgam os peitos dos homens e "devoram" garotinhas, o "sexo"? O filme é aberto a diversas interpretações e cada detalhe tem um significado, o vermelho do sangue é o mesmo vermelho do "desejo"? Neil Jordan (de "Entrevista com Vampiros") realiza seu primeiro e melhor filme, que abocanhou prêmios merecidos por todo canto do mundo onde foi exibido. Os cenários ("Companhia dos Lobos" foi quase todo filmado em estúdio) são deslumbrantes, a trilha sonora é marcante, o roteiro original, o elenco talentoso conta com a presença de Stephen Rea, o ator preferido de Jordan e ainda a aparição de Terence Stamp no papel do Diabo. Um exercício para a mente e para os olhos.
cotação

A Companhia dos Lobos (The Company of Wolves, 1984, Inglaterra)
Direção: Neil Jordan.
Roteiro: Neil Jordan, baseado no conto "Chapeuzinho Vermelho", de Angela Carter.
Produção: Chris Brown.
Música: George Fenton.
Direção de Fotografia: Bryan Loftus.
Figurino: Elizabeth Waller.
Edição: Rodney Holland.
Elenco: Sarah Patterson (Rosaleen), Angela Lansbury (Granny), David Warner (Pai), Graham Crowden (Padre), Georgia Slowe (Alice), Kathryn Pogson (Noiva), Stephen Rea (Noivo), Tusse Silberg (Mãe), Terence Stamp (Diabo) e Micha Bergese (Caçador).
Distribuição:
Em DVD pela Flashstar Filmes.

Resenha # 08: Banquete de Sangue



Numa tradução literal para o português, o verbo “to slash” significa cortar ou ferir. Já os chamados “slasher movies” são filmes que possuem algumas características distintas. Não exatamente como regra, mas sim como traços comuns aos slashers, estão os roteiros toscos, atores canastrões, nudez gratuita e, é claro, sangue e tripas pra todo lado. Exemplos famosos deste respeitado gênero cinematográfico são as intermináveis séries “Sexta-Feira 13” e “Halloween”.

Retrocedendo quase meio século, buscamos a origem dos “slashers”. No exato ano de 1960, o realizador japonês Nobuo Nakagaw concebeu “Jigoku” (Hell). Filme extremamente cruel, recheado de torturas e de todo tipo de atrocidades. Na trama, dois amigos acabam no inferno depois de atropelarem um bêbado. Embora ousasse ser explicitamente violento, faltava a “Jigoku” a despretensão do “slasher”.

Banquete de Sangue” (Blood Feast) foi dirigido apenas três anos depois pelo publicitário americano Herchell Gordon Lewis. A produção é paupérrima, a atuação do elenco é amadora, a trilha sonora é terrível e o roteiro é repleto de falhas. Mas há sangue, muito sangue. E se não há garotas completamente nuas, lá estão elas apenas de roupas íntimas (detalhe para as “minúsculas” calcinhas). Ironias à parte, “Banquete de Sangue” foi um sucesso, apesar de filmado em apenas nove dias com um orçamento limitadíssimo de 25 mil dólares, acabou faturando mais de 4 milhões apenas nos Estados Unidos. Pela despretensão, repercussão e polêmica, “Banquete de Sangue” é considerado por muitos o primeiro “Slasher Movie” do cinema, embora o longa de Nobuo Nakagaw fosse mais violento e explicito, além de produzido alguns anos antes.

Uma bela jovem é assassinada dentro de uma banheira, com uma facada no olho. Sua perna é amputada. A seqüência toda é mostrada em detalhes. Assim começa “Banquete de Sangue”, impiedoso e sem remorsos. Não há suspense ou segredo quanto à autoria dos crimes, já que a identidade do assassino é revelada ainda nos primeiros minutos do filme. Seu nome é Fuad Ramsés, dono de um buffet de comida exótica e adorador da deusa egípcia Ishtar. Seu plano é usar “partes” das garotas assassinadas num macabro ritual de ressurreição.

“Banquete de Sangue”, apesar de ser indiscutivelmente um filme ruim, é um divisor de águas no cinema de horror. A violência nos filmes, que antes era apenas sugerida, agora era exibida e em cores vivas. O diretor Herchell Gordon Lewis inicialmente investiu em uma carreira totalmente dedicada aos filmes de horror de baixo orçamento. Ainda nos anos 60 realizou "2000 Maníacos" (recentemente refilmado com o ator Robert Englund como protagonista) e “Color Me Blood Red” (ambos de1964), “The Gruesome Twosome” (66), “A Taste of Blood” (67), “The Wizard of Gore” (68) e “The Gore-Gore Girls” (71). A mesma fórmula, violência explícita, mutilações, decapitações, vísceras e uma grande diversidade de agressões foi usada por Lewis em todas estas produções, o que acabou lhe rendendo o título de Pai do Gore.

E todo o êxito de “Banquete de Sangue” é mérito de H. G. Lewis, pois é responsável, além da direção, pelos efeitos, pela idéia original, produção, fotografia e a insuportável trilha sonora.

Quase 40 anos depois, contrariando a regra, Lewis dirigiu uma seqüência superior ao original chamada “Blood Feast 2: All Us Can Eat”. O primeiro filme chegou a ser em lançado em VHS no Brasil pela extinta Sunrise, mas continuam ambos inéditos em DVD. Em 1989 foi realizada ainda uma péssima refilmagem chamada "Um Jantar Sangrento" (Blood Diner).

Depois de quatro décadas de “slasher movies”, “Banquete de Sangue” cristalizou-se como fundador deste sub-gênero e serve hoje, muito mais como um documento histórico do que exatamente diversão.
Cotação
Banquete de Sangue (Blood Feast, 1963, EUA)
Direção: Herchell Gordon Lewis.
Roteiro:
Allison Louise Downe.
Produção: Herchell Gordon Lewis.
Fotografia: Herchell Gordon Lewis.
Edição:
Frank Romolo e Robert Sinise.
Música: Herchell Gordon Lewis.
Elenco: William Kerwin (Det. Pete Thornton), Mal Arnold (Fuad Ramsés), Connie Mason (Suzette Fremont), Lyn Bolton (Sra Dorothy Fremont) e Scott H. Hall (Capitão de Polícia).
Distribuição: Inédito em DVD.

Resenha # 07: Aniversário Macabro


No dia em que completaria 17 anos, a jovem Mari Collingwood e uma amiga acabam nas mãos de perversos fugitivos. Enquanto seus pais preparam uma festa de aniversário surpresa, Mari e sua amiga são violentadas e mortas. No dia seguinte os assassinos pedem abrigo na casa dos pais de sua vítima. Os criminosos não suspeitam do terrível destino que os aguarda.

Produzido por Sean S. Cunningham (o criador da cinessérie "Sexta-Feira 13") e dirigido por Wes Craven (idealizador do personagem "Freddy Krueger" e da série "Pânico"), "The Last House on the Left", que foi chamado de "Aniversário Macabro" no Brasil, é um dos filmes mais controversos do cinema, por apresentar cenas de grande violência e nudez que chocaram o público e a crítica da época. Foi diversas vezes cortado e restaurado pela censura norte-americana, ficando ainda assim proibida a sua exibição em vários países durante muitos anos.

O roteiro de Ingmar Bergman para "A Fonte e a Donzela" (vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 1959) é transportado para o começo dos anos 70. Após a indigesta derrota no Vietnã, a geração hippie "Paz e Amor" aos poucos é substituída por uma nova geração, que vive a ressaca de drogas pesadas usadas pelos pais e está a mercê da violência gratuita. É este clima de selvageria e insegurança que é retratado em "Aniversário Macabro". A violência narrada no filme é nua e crua, sem a estilização gráfica dos filmes atuais, o que torna o filme muito mais indigesto e incômodo. As jovens Mari e sua amiga são torturadas e violentadas num clima de crueldade quase insuportável até a metade do filme. Na segunda metade o desejo pela vingança é compartilhado com o expectador, na punição extrema imposta pelos pais de Mari aos algozes da filha.

"Aniversário Macabro" é o primeiro trabalho de Wes Craven, que dirigiria pelo menos mais um filme "nestes moldes" antes de escolher o caminho mais comercial (e mais lucrativo): "Quadrilhas de Sádicos" (recentemente refilmado como “Viagem Maldita”), que conta a história de uma família que se perde num deserto e é atacada por canibais.

É, "the dream is over".
Cotação:

Aniversário Macabro (The Last House on the Left, 1972, EUA)
Direção: Wes Craven.
Roteiro: Wes Craven. Produção: Sean S. Cunningham.
Fotografia: Victor Hurwitz.
Edição: Wes Craven.
Música:
David Hess.
Figurino: Susan E. Cunningham.
Elenco: Sandra Cassel (Mari Collingwood), Lucy Grantham (Phyllis Stone), David Hess (Krug Stillo), Fred J. Lincoln (Fred Lincoln), Jeramie Rain (Sadie), Marc Sheffler (Junior Stillo), Gaylord St. James (Dr. John Collingwood) e Cynthia Carr (Estelle Collingwood).
Duração: 84 min.
Distribuição: Em VHS pela Argovídeo.

 
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