Resenhas # 19 - "O Juízo Final"


Aqui, na cozinha do Nocturnia-Z, já lhes demos a receita de como fazer um filme ruim, muito ruim (leiam “O Portão do Cemitério”). Hoje vamos trabalhar numa receita diferente e bem mais interessante: como fazer um filme divertido.

Primeiro pegamos o maior número de idéias de filmes que são cultuados, amados e idolatrados e misturamos tudo, sem medo de ser feliz. No caso, nosso grande amigo cozinheiro Neil Marshall misturou nada menos que “Fuga de Nova York”, “Mad Max”, “Extermínio”, “Rei Arthur” e um pouco de “Resident Evil”. Com a salada já pronta acrescentamos o ingrediente principal da trama: uma protagonista bem apetitosa e invencível. Recheamos tudo com doses de violência e pitadas de conspiração governamental. Cobrimos com uma trilha sonora rock and roll e fechamos o filme com uma fuga alucinante naquele carrão que todo marmanjo sonha, mas nunca vai dirigir.

Obviamente não estamos falando da maior obra-prima do cinema inglês, mas sim de uma produção descompromissada, com bons efeitos digitais, ótima maquiagem e ainda grandes cenas de ação. “O Juízo Final” é o terceiro trabalho do cineasta Neil Marshall (“Cães de Caça” e “Abismo do Medo”) e comprova seu talento na direção. O roteiro, escrito pelo diretor, começa mostrando a Escócia sendo assolada por um vírus chamado Reaper. Os infectados sucumbem em enormes feridas e apodrecem em carne viva. Rapidamente o governo britânico isola a colônia escocesa com enormes muros, deixando todos morrer por lá, infectados ou não. Passam-se três décadas e o vírus Reaper volta a se manifestar, agora em plena capital inglesa. Os governantes então planejam inundar Londres, contendo assim a infecção. Entretanto fotos de um satélite mostram sobreviventes dentro do território escocês, mesmo depois de anos de isolamento. Teriam eles encontrado a cura para o vírus fatal? É aí que entra a agente Sinclair, uma bela morena “de um olho só”. O outro é uma prótese e ao mesmo tempo uma espécie de micro-câmera espiã. O olho-que-tudo-vê transmite imagens para um monitor-de-pulso usado pela garota. Uma evolução do personagem Snake Plissken, criado por John Carpenter em “Fuga de Nova York”, a grande inspiração de Marshall na concepção do roteiro. A agente Sinclair lidera uma equipe militar que deve se infiltrar na antiga Escócia e “fugir” com a cura para a Inglaterra, evitando assim a morte de milhares de pessoas na capital (que morreriam pelo vírus ou afogadas). Bom, o maior problema para a bela caolha não são exatamente os escoceses infectados, mas sim os sobreviventes. A antiga escócia acaba virando uma terra sem-lei, povoada por punks malucos fugidos do filme Mad Max (daqueles tatuados, com piercings, roupas rasgadas e descabelados). Mas existem outros sobreviventes dentro do território. Não menos violentos, eles vivem como se estivessem na idade média. Isso mesmo: cavalos, armaduras, espadas e castelos. Bom, parece uma bagunça e realmente é. Mas uma bagunça extremamente divertida, “organizada” por um dos grandes nomes do cinema de horror atual, o inglês Neil Marshall. A Europa filmes promete a exibição de “O Juízo Final” nas telas grandes ainda este ano. Se isto realmente acontecer, sirvam-se à vontade.

Conto # 2: Torpe

Torpe

“O anonimato é a manifestação do ódio vilão.”
(Victor Hugo)


Um disparo rompeu o silêncio. O ar carregou-se de pólvora dificultando a respiração, impedindo-nos de sentir o cheiro adocicado de sangue. Ainda que efêmero, um prazer quase complacente açoitava-nos. Sem culpa. Sem remorsos. Um corpo desabou. Seu casaco verde gradualmente tornou-se rubro. Estatística para o governo. Manchete para os jornais.

Há alguns meses era apenas uma dúvida. Pequena. Talvez ele tivesse alguma razão. Sua luta poderia ser a minha. A nossa. Aos poucos essa dúvida cristalizou-se numa idéia. Não era justo. “Este é o nosso país”. Esta idéia começou a me torturar. Não me deixava dormir. Sorrateiramente transformou-se num ideal. Um ideal que foi convertido no sentimento que nos trouxe até aqui.

Gotas de chuva caíram formando pequenas poças. A água misturou-se ao sangue. Guardava a arma ainda quente quando ouvi alguns gemidos. Sussurros que imploravam. Com as mãos sufoquei suas últimas palavras.

Alguns estranharam quando raspei a cabeça. O visual era mais agressivo e demonstrava certa insatisfação com o rumo que as coisas tomavam. Na verdade todos estavam insatisfeitos. Mas poucos realmente ligavam. Terminara de ler um livro comprado no centro de São Paulo. Era um livro odiado, mais pelo seu autor do que pelo seu conteúdo. Este, poucos realmente conheciam. Era fascinante. Palavras escritas numa prisão há quase cem anos, mas que podiam nos guiar agora.

Não me incomodava o corpo daquele jovem ali no chão. Não me importava ter tirado a sua vida. Sentia-me mais forte agora. Um a menos. Uma cidade mais limpa. Se eu o conhecia? Não.

Tatuar uma cruz em meu braço não fora uma tarefa tão simples. E depois de feita, raramente podia exibi-la. Não que eu tivesse medo, pois nesta época já não andava mais sozinho.

Com tinta spray vermelha desenhamos uma cruz ao lado do corpo. A chuva cessara. Passageira. Provamos nossa superioridade com violência. Sabíamos que a violência era tão vulgar quanto essencial ao desenvolvimento do ser humano.

Olhei pela última vez o jovem morto com um tiro na nuca. Buscava em algum lugar um sentimento de arrependimento. Nada. Uma voz sussurrava em meus ouvidos: “é a seleção natural, é a evolução. O seu destino é selado por suas escolhas, ou pela cor de sua pele. Assim separamos os fortes dos fracos. Os que vivem dos que morrem”. Respirei fundo. Você sorria ali do meu lado. Um sorriso branco e satisfeito que aprovava nossa ação.

Resenha # 18: Floresta do Mal


“U.S. – The Ultimate Survival”. Seis competidores. Seis dias. Apenas um sobrevivente. Numa floresta remota, um grupo de jovens disputa um prêmio em dinheiro num reality show que simula um mundo pós-apocalíptico. O terror torna-se real quando os participantes descobrem uma estranha família com hábitos alimentares um tanto quanto exóticos.

Em 2003, a PlayArte teve a idéia genial de distribuir “Wrong Turn” em terras tupiniquins com título de “Pânico na Floresta”. Pra que respeitar a idéia do título original, se podemos lançar o filme com um nome muito mais criativo? Quatro anos se passaram, uma continuação foi produzida e eis que a Fox (e não a PlayArte) adquire os direitos de distribuição de “Wrong Turn 2: Dead End”, no Brasil. Neste mesmo tempo, num golpe baixo e vingativo, a PlayArte lança a bomba “Timber Falls” como “Pânico na Floresta 2”, mesmo o filme não tendo nada haver com “Wrong Turn”. Numa picaretice à altura da concorrente, os responsáveis pelo setor “nome de filmes quando lançados por aqui” da Warner, batizaram “Wrong Turn 2” com o patético e originalíssimo título “Floresta do Mal”. Tomaremos a liberdade (mesmo que por um único parágrafo), de chamar Wrong Turn de “Caminho Errado” (não soa muito bem, mas se aproxima de sua tradução literal) e a sua continuação pelo subtítulo “Sem Saída” (Dead End).

Superando a falta de originalidade na escolha dos títulos em português pelas distribuidoras, vamos ao filme em si. “Floresta do Mal” (respeitando a escolha oficial), assim como seu antecessor “Pânico na Floresta”, não apresenta muita coisa de inovador. Apesar de não ser exatamente um filme ruim, temos a sensação de estarmos assistindo a uma versão genérica dos clássicos “Massacre da Serra Elétrica” e “Quadrilha de Sádicos”. Todas as peças estão lá: jovens desavisados e sem conteúdo caçados por canibais deformados num ambiente inóspito e isolado.

Entretanto “Floresta do Mal” começa muito bem, com uma seqüência um tanto promissora e violenta. Neste prólogo, a cantora, atriz e “American Idol”, Kimberly Caldwell dirige um belo Mustang conversível por uma estrada quase deserta. Pelo celular, ela discute distraidamente com seu empresário uma participação num reality show, quando, comprovando que não se deve jamais usar o telefone enquanto se está ao volante, atropela um desconhecido. Desesperada, a loira desce do carro e tenta prestar socorro à vítima (um rapaz cujo rosto parece deformado). Ao se aproximar do atropelado, Kimberly nota que ele parece engasgado e então tenta puxar sua língua. O rapaz acorda e num gesto furioso, arranca-lhe o lábio inferior com uma mordida. Ensangüentada e em pânico, Kimberly tenta fugir, mas acaba cara a cara com outro homem, que com uma única machadada a corta ao meio.

Esta seqüência é apenas uma pequena amostra do que nos reserva os 90 minutos seguintes. Muita violência explícita, machadadas, flechadas, tiros, facadas, membros decepados e pescoços degolados, entre outras inúmeras crueldades habituais nas produções do gênero. Os ótimos efeitos de maquiagem não deixam a desejar nos “deliciosos” excessos: são tripas, intestinos, dedos, e pedaços de gente suficientes para alimentar a família canibal por muito tempo.

Mas mesmo com estes bons efeitos e o “gore” exagerado, “Floresta do Mal” não chega a impressionar. Falta a produção aquele clima incômodo e indigesto característico as produções setentistas que lhe serviram de inspiração. Esta ausência de suspense deve-se em parte ao fraco desempenho dos atores.

O “dispensável” elenco, destinado a virar o jantar de uma família de malucos deformados canibais, é composto por Aleksa Palladino (que fez uma pequena participação em “O Chamado 2”), interpretando Mara, a namorada do idealizador do reality show (Matthew Currie Holmes, de “A Névoa”). Somam-se aos participantes do programa a linda vegetariana Nina (Erica Leerhsen, de “O Massacre da Serra Elétrica” refilmagem), a também linda Amber (Daniella Alonso, de “O Retorno dos Malditos”) e a safada Elena (Crystal Lowe, de “Premonição 3”). A trupe masculina é liderada pelo vocalista da Rollins Band, Henry Rollins (de “Banquete no Inferno”). Henry encarna o ex-combatente de guerra e mediador do programa. Completando o elenco estão os inexpressivos Texas Battle (“Premonição 3”) e Steve Braun (“Sociedade Secreta 3”), interpretando Jake Washington e o engraçadinho Jonesy.

O roteiro, que foi escrito pela dupla Turi Meyer e Al Septien, responsáveis por diversos episódios de “Smallville” e pelo fraco “Candyman 3: Dia dos Mortos”, se resume a simples tagline do filme: jovens sendo mortos um a um por uma família de canibais deformados. Uma variação da trama do primeiro longa (e de centena de outros), que apresenta ainda diversas situações idênticas as apresentadas no filme anterior, como a visita das heroínas a cabana dos canibais e o cemitério de automóveis. A própria idéia do reality show não é nova, pois já havia sido explorada por produções semelhantes como “O Olho Que Tudo Vê” e “Halloween: Ressurreição”. Uma única sacada divertida é a caracterização do personagem vivido por Henry Rollins, que em determinado momento se transforma numa espécie de Rambo, com direito a cara pintada e arco e flecha.

A direção ficou a cargo do estreante Joe Linch (grande promessa segundo o site americano “Gorezone”). Apesar de algumas tomadas de ângulos extravagantes, o resultado final é um tanto convencional.

Assim como o prólogo, algumas outras seqüências salvam o filme do fiasco, como o nauseante nascimento de um bebê deformado, e uma asquerosa cena de sexo entre irmãos canibais. Uma boa idéia também é a critica constante aos reality shows, mostrando a falta de caráter e personalidade dos participantes, assim como a manipulação dos acontecimentos (uma cena de sexo é programada entre os participantes, sem nada de natural). O filme também questiona, de forma menos explícita, a “hipocrisia cristã” em relação a alimentação, quando a família canibal faz uma oração, antes de devorar seu prato predileto.

Apesar de todas as obviedades de “Floresta do Mal”, o bom desempenho do DVD ao redor do mundo e algumas boas críticas tornaram viável a produção de uma nova continuação, prevista para 2008 com direção do mesmo Joe Linch. No Brasil, a versão em DVD, denominada “UNRATED” (sem censura), traz como material extra o making of, trilha de áudio com comentários e dois pequenos documentários chamados “Nas Locações com P-Nut” e
“Fazendo o Esquartejamento Ter Uma Boa Aparência”.

“Floresta do Mal”, na melhor das hipóteses, pode ser considerado uma boa homenagem aos primeiros trabalhos dos cineastas Wes Craven e Tobe Hooper. Esta homenagem (reciclagem ou plágio, como preferirem) fica evidente na seqüência do jantar, quando a “visita” se vê obrigada a provar o prato principal a base de carne humana (a ironia: ela é vegetariana). Algo muito próximo ao que foi visto em “O Massacre da Serra Elétrica”, de Hooper. Uma outra citação é a camiseta preta usada por M, com o logotipo “BR” (de “Battle Royalle”, produção japonesa que é indiscutivelmente o melhor filme focando reality shows já realizado).

Enfim, um terror mediano, indicado aos fãs de “gore” explícito e que não sejam muito exigentes quanto ao conteúdo. Estes são brindados com milhares de litros de sangue e toneladas de tripas.

Cotação:
Floresta do Mal (Wrong Turn 2: Dead End, EUA/Canadá, 2007).
Direção: Joe Lynch.
Roteiro: Turi Meyer e Al Septien.
Produção: Jeff Freilich.
Produção Executiva: Erik Feig.
Edição: Ed Marx.
Desenho de Produção: Brentan Harron.
Direção de Arte: Kirsten Franson.
Maquiagem: Angelina P. Cameron, Stan Edmonds, Vanessa Giles, Keith Lau e Shauna Magrath.
Figurino: Hisami Yamamoto.
Fotografia: Robin Loewen.
Música: Bear McCreary.
Elenco: Erica Leerhsen (Nina Papas), Henry Rollins (Dale Murphy), Texas Battle (Jake Washington), Daniella Alonso (Amber), Steve Braun (Jonesy), Aleksa Palladino (Mara), Crystal Lowe (Elena), Matthew Currie Holmes (M), Kimberly Caldwell (Kimberly), Ken Kirzinger (Pa), Wayne Robson (homem velho), Jeff Scrutton (Three-Finger), Clint Carleton (irmão), Rorelee Tio (irmã), Ashlea Earl (Ma), Cedric De Souza (Neil), John Stewart (Wojo) e Bro Gilbert (Chris).
 
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