Contos # 3 - Não Identificado

Não podia entendê-lo. Não mais. Suas armas. Suas guerras. Seu discurso balbuciando alguma salvação. Mas meu entendimento veio em frações homeopáticas. Não me lembro ao certo, mas a primeira vez que fui sequestrado tinha quase oito anos. Desapareci por quatro dias. Apanhei outros três. Fui levado novamente cinco anos depois. Meus pais me encontraram desmaiado no quintal. Nu. Pílulas coloridas prometeram colocar nos eixos o meu estado mental. E acabar com os pesadelos. Em vão, acabei internado num quarto de paredes branquíssimas que queimavam os olhos. Os pesadelos aumentaram. Figuras disformes me rodeavam. Pupílas gigantescas me vigiavam. Sempre. Pequenas feridas se espalhavam por meu corpo. Segundo o médico, feitas por mim. Permaneci intermináveis meses trancafiado até ser outra vez levado. Fui devolvido 48 dias depois 300 quilômetros distantes.

Voltei diferente. Parecia curado, ainda que me sentisse estranho entre meus semelhantes. Não havia mais pesadelos. Nem feridas. Nem dor. Nem medo. Um emprego respeitável. Uma casa para o cachorro. Um diploma em biologia. E uma inexplicável atração pelas estrelas.

A calmaria foi substituída pela inquietação. Sabia que seria sequestrado de novo. Sabia também que seria diferente desta vez. Às noites aguardava olhando para o céu. Imponente. Infininito em sua negritude. Esperava ser levado pela última vez.

Consciência. Descobri num quarto frio e metálico que não seria meu último encontro. Meu sangue era drenado. Minha saliva sugada. Meu cérebro violado. Difícil crer que não havia dor. Ainda que cada centímetro do meu corpo estivesse perfurado por minúsculas agulhas, que coloridas brilhavam e iluminavam uma escuridão opaca.

Eles falavam sem mover os lábios palavras que não eram palavras. “Você está pronto para compreender o destino que lhe será revelado.” Tentei falar, mas minha boca estava paralisada. Assim como o resto do meu corpo, que flutuava imóvel entre aparelhos que me eram familiares sem nunca tê-los vistos.

“Não nos tema, pois estará temoroso de si mesmo. Estamos aqui para evitar o que parece inevitável: a falência e a degradação de um paraíso que aos humanos foi cedido há milhões de anos. São muitos iguais a nós, espalhados pelo terceiro corpo, se multiplicando, em idéias e em esperança”.

Aceitei quem era então. Diferente de ti embora semelhante. Compreendi então por que não podia entendê-lo. Suas armas. Suas guerras. Sua dor auto-inflingida. A destruição do seu lar. Entendi meu destino: mudá-lo.

 
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